sábado, agosto 12, 2017

sobre fazeres

dias desses encontrei alguém que não via fazia anos, a pergunta mais natural de um paulista é perguntar o que a pessoa tem feito e isso abrange muito mais o sentido do trabalho do que o abstrato. respondi alguma coisa no caminho natural da pergunta e depois me peguei pensando no que eu - realmente - estava fazendo, o pensamento foi engolido nos dias seguintes por outros encontros e momentos, mas voltou no meio da tarde de um sábado.

 entre as coisas ainda deixadas na casa dos meus pais, achei o livro que tem o meu conto preferido do caio fernando abreu e eu já li um total de um milhão de vezes, mas não me cansa nunca. para uma avenca partindo. e, sem aviso, o pensamento do que estou fazendo me voltou com força. eu estou repensando, estou vendo outras coisas, estou lendo mais livros, assistindo mais séries, ouvindo mais as pessoas, tenho ficado também mais em silêncio ouvindo os meus sons e os meus silêncios.

 estou procurando o meu próximo desejo que talvez já esteja em mim, ou não. tenho tido menos paciência e, na contramão disso, criado mais empatia. meus interesses se alargaram e comecei a me sentir uma bagunça tremenda. estive um tempo nadando em mar aberto, onde não dava pé, mas isso me cansou. me aventurar no desconforto dos outros e de mim, me fez reconhecer quem sou e aceitar que gosto da segurança da maresia. tenho repensado e isso tem me coloca cada vez mais perto de mim, de novo.

 o que eu tenho feito? tenho (re)feito e só.

domingo, julho 30, 2017

the last one

foram anos de uma companhia silenciosa. foi meu diário aberto, meus sonhos compartilhados, meus amores inventados e alguns verdadeiros. foram minhas anotações de batalhas de quando eu acreditava que a paz só vinha da guerra. foram quase onze anos desse lugar na minha vida, eu apago a luz do blog porque eu já não acho mais que a paz vem da guerra e minhas anotações de batalha viraram momentos gravados na minha memória e na vida.

 parei de procurar paz no desconforto e uma montanha para escalar sempre maior do que a que eu estava, passei a valorizar os meus caminhos mais do que a linha de chegada. e sim, se tiver angústia - e ela como fiel escudeira, existe - eu vou mesmo assim. um dia pós outro, dia a dia, ano a ano, sem esse blog porque viver é também descansar dos nossos fantasmas.

 obrigada a cada um que leu esse blog por tantos anos, a muitos que eu conheci através dele, a cada oportunidade que ele me deu e a cada troca que ele proporcionou. a gente se encontra, em outras linhas, em um outro lugar, na vida ou nessa terra chamada internet.

por fim, eu desejo a todos e a mim, todos os dias, apenas coragem. coragem para não desistir de nada que acredito, coragem para aprender nas diferenças, coragem para abdicar de algumas certezas em benefício da dúvida, coragem para continuar deixando a vida me tocar, coragem para sentir, coragem para encontrar alguma poesia nos dias difíceis e paz nos dias mais alegres.

 "às vezes, temia estar feliz demais. ficava mal-humorada (...) ou se mantinha distante. e sua alegria se tornava inquieta, batendo as asas dentro dela, como quem busca uma chance de sair voando" Chimamanda Ngozi Adichie

terça-feira, julho 19, 2016

décimo segundo andar

Lembro do seu sorriso quando segurou minha mão pela primeira vez e do jeito nosso que faz cada abraço ser um dos melhores lugares do mundo. Faz dois meses que você me ensinou a sorrir com os olhos enquanto me pede pra falar. Sessenta dias que já coube tanto como se nosso tempo fosse outro. 

Nesse dia a dia que a gente acumula histórias e bons dias. Nesse jeito seu de me fazer sentir saudades no instante seguinte que o elevador chega no primeiro andar e a gente anda pelo bairro voltando a dividir a vida com os outros.

 Do jeito que consigo dividir meus medos enquanto a gente cozinha, da doçura dos seus gestos me apresentando seus lugares, me colocando na sua vida. Os dois primeiros meses de nós. Dias de simplicidade, de paz, de um conforto enorme em me sentir par.

E do mesmo frio na barriga toda vez que aperto o doze que é o seu andar...

quarta-feira, junho 29, 2016

Entre nós

Somos um emaranhado de coisas demais. Um emaranhado de sonhos, de vontades, de coragem, de desejos e de medos. Tenho medos enormes e alguns inconfessáveis. Tenho medo de cobra, de estagnar, de deixar de seguir meus sonhos, do escuro que inebria a vida e de filme de terror.

 Tenho medo de perder meus pais e meus amigos. Da falta de escrúpulos dos humanos. Da situação do país. De deixar de sentir a paz que a música me dá. Tenho medo comuns e descobri que por muito tempo tive medo de ser feliz.

 Muitos anos acreditando que felicidade era só estar. Mas aí você apareceu na minha vida e mostrou que felicidade é questão de aceitar ser. É cultivar a crença de que somos realmente protagonistas das nossas histórias. É sentir aquele medo que provoca frio na barriga pela plenitude do abraço, pelo volume da risada, pela tranquilidade de acordar dia após dia sem campo de batalha. É cuidado, é agrado, é troca.

 É, depois de muito tempo, repousar...

sábado, maio 07, 2016

(a)mar

Das surpresas que a vida reserva me peguei chorando com um vídeo de casamento noite dessas em um bar. E ali retifiquei a certeza de que o amor me emociona, mas não esse amor ideal. Faz tempo que deixei de acreditar em "ideal", acho linda a ideia de alma gêmea, mas é muita poesia e eu sou prosa. Acredito que o outro é a melhor extensão de nós se somos inteiros, se somos generosos, se somos pacientes, se aceitamos os defeitos e não gastamos energia querendo fazer alguém caber nas nossas expectativas.

 O amor que eleva, incentiva e impulsiona. O amor que faz a gente rir mais alto porque transborda. O amor que muito diz, mas também se cala. O amor que mais liberta do que aprisiona. O amor da companhia, das vontades parecidas, das concessões possíveis. O amor que não é jogo e sim quebra-cabeça. Que ensina a viver no outro abrindo espaços na vida, no armário, na solidão e só flui.

 O amor que não é paz todos os dias, mas que é mais calma que caos. Que tenha sorriso, mas também colo para as lágrimas, que permita olhar o estranho de alguém e ele te toque com carinho. O amor. Todo amor. Sempre amor.

segunda-feira, abril 25, 2016

zona de segurança

Tem dias que acordo e sinto falta da gente. Sinto falta dos sorrisos, das frases desconexas, da falta de sentido, de resolver o mundo inteiro nas mesas dos bares da nossa cidade. Sinto falta de ter você a distância de um metrô depois de um dia cheio.

 Sinto falta dos vinhos no Urbe, dos discos acumulados, dos livros discutidos, das viagens programadas e ainda não feitas. Sinto falta de torcer por aquele seu amor antigo mesmo admitindo que é melhor assim. Falta as noites na sua casa ouvindo os últimos trinta vinis que você comprou na última viagem. E a sua visão prática que divide tudo em compartimentos e que eu tento tanto aprender.

 Sinto falta das cervejas no vão livre do MASP enquanto todos passam apressados na Avenida Paulista. E de como eu odiava te esperar e como você sempre me deixava esperando. Das viagens todas que acumulamos tantas histórias, das suas histórias todas que são tantas que é sempre capaz de divertir uma noite inteira. Dos churrascos na casa dos seus pais. Das músicas horríveis que só a gente gosta e das novelas que a gente discute. De quem você se tornou e da responsabilidade que combina tão bem com você.

 Sinto falta de você reclamando que o som tá alto, que eu não paro de digitar, que estou ouvindo a mesma música pela milésima vez e protegendo nossa vida quando achamos que seria possível pular de casa até a piscina do clube. Das tardes no shopping, do seu dom de encontrar as coisas que eu vou gostar e nem tinha notado. De quando minha mãe chegou com você em casa e eu te amei desde o primeiro berro. Mas também odiei quando você pegou mil vírus no meu computador porque aprendeu a baixar música.

 Saudades, meninas, de todas nós e nossos nós.

domingo, março 20, 2016

Se eu lhe disser que a vida é boa

Gosto muito do outono no Rio. Os dias exigem menos alegria que o verão e emprestam mais calma. A temperatura é mais humana, as cores mais bonitas, o casaco pendurado na bolsa é menos julgado embora eu ache ele sempre muito necessário porque carioca não sabe brincar com ar condicionado em estação nenhuma.

 Gosto muito do outono em São Paulo e seu vento frio. Os seus cafés, os vinhos a tarde, as exposições de domingo.

 Acordei mais paulista do que o comum, meus amigos se dividiam entre a ressaca da festa de ontem, a preguiça e a praia. Senti falta da melhor amiga, a única pessoa que me visita e com quem separo um dia todo para percorrer museus apesar da praia, do calor, do sol e das outras infinitas possibilidades cariocas. Pensei que faz anos que a gente muda o tempo todo e nesse tempo é ela quem vai sempre topar ir numa exposição em uma tarde de domingo.

 Apesar de ficar muito mais sozinha agora do quem em São Paulo, é impressionante como fui perdendo minha capacidade de estar só, coisa comum como pegar o fone e ir dar uma volta sem ninguém é cada vez mais raro. No Rio sempre tem mais gente na rua, sempre tem alguém chamando pra fazer alguma coisa ou fazer nada olhando o mar. Mas hoje era o meu dia. Era o dia que eu queria visitar quem eu costumava ser, ir ver a exposição que termina na semana que vem, me apropriar do meu tempo. Colocar um vestido, tênis, pendurar a jaqueta na bolsa, o disco do Caetano e Gil no Spotify e ir andar no ritmo dos meus passos. Voltar da porta do prédio porque avisaram da promoção de passagem e não me sentir culpada porque tem alguém me esperando. Passar na padaria e tomar café no metrô. Ver a exposição e ficar um tempão parada na frente da mesma tela.

 Tem dias que a gente lembra como estar só é diferente de solidão. E depois você encontra os amigos, almoça naquele restaurante peruano que morria de medo de detestar e termina o dia com uma cerveja vendo o pôr do sol porque o Rio me deu uma coisa que teimava em não enxergar: infinitas possibilidades.