domingo, fevereiro 20, 2011

little by little by hook or by crook

Me sinto espectadora da minha própria vida. Não sei mais o que de mim se faz. Assisto a tudo tomando o ritmo e seguindo o passo que não consigo acompanhar. É ruim gostar e está sendo pior, não mais gostar. Me perdi nas voltas da minha vida, não tenho mais as palavras certas, não recorro mais para as frases prontas que um dia você me deu, a busca agora não tem um guia e hoje percebo que se você foi minha bússola, foi graças a isso que não me perdi.

As luzes brilham muito lá fora, a noite me fascina, abraço a irresponsabilidade enquanto me perco. Cada dia um pouco mais longe de mim. Tô cansada dessa vida toda para fora, sem conseguir olhar o que levo dentro já que todas as impossibilidades me machucam. Minha vida tal como um dia existiu, já não mais me pertence, sinto falta dos abraços e das noites que se transformavam em melodia. Sinto falta dos domingos e do jeito que parecia existir um acordo com a paz. Sinto falta de estar dentro de mim sem que me ocorra nenhum momento ruim. Sou muito do tudo que não consegui desfazer. Alguma parte ainda está no passado, sem conseguir dar um pulo até o presente e me deixar seguir para o futuro. Voltas, voltas, voltas. Angústia. Fim.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

heaven is a feeling I get in your arms

Tem abraços que nunca esqueço, como se o instante fosse eternizado, os braços ao redor do corpo do outro enquanto um suspiro denúncia a falta que fez a ausência. Não são só abraços de amor. São abraços de encontro e reencontro. São abraços que entregam o tamanho do coração de alguém. São abraços tímidos, são abraços cruzados, são abraços onde se sente mais perto, são abraços que se fazem distantes. Para mim, as amizades, amores talvez efêmeras paixões surgem desses pequenos instantes. Só então se fazem as palavras, se trocam ideias, surge o silêncio que conforta, os sms preocupados, as mensagens engraçadas. Se escreve uma história e se muda o rumo dela enquanto os desentendimentos correm ao lado.

Não lembro de muitas coisas. Do passado, reservo os abraços e conservo os cheiros. Relembro a melodia da respiração que se torna música enquanto na minha cabeça se faz uma sinfonia qualquer.

Por gosto e precaução prefiro seguir entre abraços, silêncios e melodias.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

mudou, mudei, mudamos

De repente me pego fazendo planos para o futuro que descartam as mágoas do passado. Vontades que me levam para o desconhecido, me fazem ter coragem e vontade outra vez. Quero tudo o que tiver de novo. Quero poder sentir sem me preocupar com as aparências. Quero me perder e me encontrar, quero me sentir gigante e pequenina, quero vacilar entre extremos para me encontrar em algum ponto entre o que fui, o que sou, o que serei. Quero da liberdade o que ela pode me dar. Quero do ar a leveza que me ajude a flutuar. Quero só ter a certeza de que foi necessário passar. E, daqui pra frente, não existe nada que me faça voltar a rodar. Saí do círculo onde caminhei. Saí da roda e em linhas tortas, algum dia, eu chego. Onde? Não sei.

sábado, fevereiro 12, 2011

looking out on the substitute scene

De repente uma preguiça das coisas e dos outros. Dos outros que misturam as suas vontades com as minhas e transformam a sua projeção em expectativa. Inventam o que preciso ser, como devo me portar, quais são os lugares que devo frequentar. Recriam as amarras infantis que me prendiam a vontade dos meus pais, quando minha mãe fazia de mim a boneca que ela adoraria que eu tivesse sido. Fazem parecer ser completamente inaceitável não corresponder as vontades de um grupo que nunca pedi para fazer parte. Considero rock coisas que o rock não se veste. Respeito a entrega da Elis Regina e das mulheres do jazz. Não tiro de mim a admiração pelas coisas que não se encaixam. Como uma noite no Pelourinho assistindo um ensaio do Olodum. Me reservo o direito as experiências que não preciso classificar.

Tem horas que queria apenas não estar. Me soltar das expectativas dos outros e conseguir voar mais alto. Tem horas que queria apenas estar em pleno voo e não estar sozinha. Quero respeito aos pensamentos que não se completam já que a insistência se torna um fardo. De repente, sumo, desligo o celular e a vida, não respondo e-mails e me coloco a disposição da minha cabeça. Transformo a busca em palavras, esclareço os dias e reforço as vontades.

Já não me diz nada as voltas do meu passado. Andando em círculos, nunca sai do lugar, só aprofundei as pegadas já que os meus pés seguiam sempre o mesmo caminho. Me tornei previsível, irrisível, sem graça e sem cor. Até que... De repente, a vida mude de rumo e você nem vê. Chove lá fora e a vida volta a sorrir aqui dentro.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011


É difícil entrar no mais fundo de mim e perceber coisas das quais não gosto. É complicado admitir que existem medos inconfessáveis de tão banais. Sinto que a cada passo fica ainda maior a estrada dessa busca sem fim por respostas que só se traduzem em mais perguntas.

Partes de mim se trocam por novidades, como se fosse abrindo espaço na vida enquanto me reservo o direito de mudar. O que ontem me interessou hoje já pode não me dizer mais nada. São pequenas mortes, entre o lado negro e a claridade, entre a realidade e o ideal. Me lembro exatamente do momento em que notei que nada jamais voltaria para o lugar de origem, um vacilo certeiro e um novo mundo de possibilidades complexas se abriu diante dos meus olhos.

Faz pouco me pediram para "assumir as responsabilidades", foi literal e o caso se explica. Mas, diante disso me vi na beirada da minha vida olhando para dentro e notando quantas vezes deixei o momento de apenas ter coragem de assumir a responsabilidade. Porque uma das frases do filme (aquele que mexeu com tudo aqui dentro) que mais ecoa na minha cabeça é "você poderia ser brilhante, só que é uma covarde". Isso, sempre, para todo mundo, somos covardes quando deixamos as responsabilidades em segundo plano ou quando nos tornamos tão apegados as regras que vivemos de convenções. Somos covardes. E, quanto de coragem será necessário, para olhar para dentro sem medo do que vai encontrar?

Me pego separando o que me tem. Contando quantas sou para ser apenas uma. Revisito o passado para resgatar algumas coisas que larguei no chão da sala que nunca mais entrei. Dou como mania o hábito de fugir dos que me conhecem, tem horas que prefiro o olhar vazio de quem nada sabe sobre mim, é confortável se esconder nas aparências, sem que ninguém seja capaz de tocar no mais fundo de mim. Faço pose enquanto engano o espectador. Escondo mágoas nas risadas, dúvidas em frases já pensadas e segredos em piadas.

Sei que no fim, depois que uma peça muda de tamanho ela nunca mais se encaixa no mesmo lugar. Enquanto a transição não está completa, sigo sempre vivendo entre várias, eu, uma.

domingo, fevereiro 06, 2011

you make me feel

Te quero em segredo, escrevendo nas entrelinhas da minha vida, preenchendo o lugar que guardei para você. Viajar para um lugar onde ninguém nos conheça e viver a vida como personagens de um filme bobo. Depois voltar para a realidade, para o café da manhã, com as suas manias. Te quero para discordar dos filmes que eu gosto e para me mostrar os filmes de época que ainda não vi. Te quero para questionar minhas verdades enquanto aceita as minhas diferenças. Te quero para ouvir as suas histórias enquanto escrevemos a nossa. Te quero para me fazer acreditar que tudo é possível. Te quero para sentir falta sempre que você não estiver e sentir sede da sua presença. Te quero para sorrir das frases bobas, dos seus pensamentos que se confessam em horas e das nossas besteiras. Te quero no fim da tarde olhando o pôr-do-sol. Te quero na manhã seguinte. Te quero uma noite inteira. Te quero no domingo a tarde. Te quero para entender porque foi você e é sempre só você.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Entre singular e plural

Uma parte de mim quer altura e a outra melodia. Uma parte quer movimento e a outra calmaria. Uma parte quer conhecer o mundo e a outra quer apenas se conhecer. Uma parte de mim quer refazer o caminho e a outra prefere mudar de estrada. Uma parte quer reescrever a história e a outra adoraria uma folha em branco. Uma quer uma festa enorme e a outra prefere a solidão do quarto vazio. Uma parte quer fazer do mundo o quintal da sua casa e a outra faz do quintal de casa o seu mundo. Uma parte é fácil e a outra complexa. Uma parte é tolerante e a outra não entende as pessoas. Sempre trocando passos com a maldição da pluralidade de quem nunca aprendeu a ser singular. Por medo e precaução, se mantém longe dos extremos e por isso se sente inerte.

terça-feira, janeiro 25, 2011

It's just that it's delicate

Uma enorme sensação de conforto, a simplicidade de poder simplesmente ser e de reconhecer no outro o que não se perde. Errei muito, te transformei em palavras e fiz de você um personagem que só existia em letras. Esperei que você se comportasse como o meu personagem, sentisse as emoções que eu emprestava a ele e julgasse certo o que o reflexo de mim gostaria que fosse. Por muito tempo perdi o que não soube aceitar, as suas particularidades, o seu jeito de ser. Nem nos mais belos textos o meu personagem seria melhor do que a realidade, porque é dela que se movimenta os seus atos, que se faz a sua graça. Bom te ver sonhando, querendo, acreditando sempre com aquele jeito seu de não se dar o devido valor.

Admito que no momento, eu que nunca me importei com que os outros acham, tenho medo. Eu que nunca liguei para o depois desde que o instante fosse realmente vivido, nesse espaço de tempo, tenho medo. Me libertei do sentir para conseguir me livrar do passado, me desfiz das amarras que me mantinham em outro espaço, passei a jogar com a vida e a colorir os caminhos. Fiz da leveza a minha missão, fiz do dia seguinte apenas um dia qualquer, fiz de tudo para achar que até então fazia da vida um cálculo matemático errado, como diria Clarice.

Me soltei das palavras e fui para fora, simplesmente viver. Me desfiz da poesia, nunca mais gravei CDs ou soube qual era a bebida preferida de alguém. Nunca mais deixei ninguém entrar na minha vida, como se tivesse fechado a porta e já não pudesse mais voltar a trilhar esses velhos caminhos. Desde então, dentro de mim, me sinto segura.

Alguns cheiros me remetem direto para uma lembrança vagamente esquecida. Hoje sei que é dele que sinto falta, do passado. Será então seguro brincar com as estradas que um dia me levaram direto ao precipício maior que foi encontrar esse medo (de viver)? Nunca fui de levar a vida direto para a segurança, só que agora...

If it means nothing to you
Why do you sing with me at all?

We might live like never before
When there's nothing to give
Well how can we ask for more?
Damien Rice - Delicate

domingo, janeiro 23, 2011

Anestesiada

Talvez tenha sido o passado ou seja apenas uma fase. Quem sabe a maturidade do dia após dia, da marca após marca, dos momentos de felicidade, da busca infinita, da insatisfação crônica, do querer sem querer. Me faz falta sentir com a mesma intensidade que um dia a juventude me permitiu, não que se tenham passados tantos anos a ponto de eu não mais me encontrar com a juventude. Foi só o tempo que passou, aquele que cicatriza feridas e desconserta as resoluções fálidas, aquelas que a gente toma só para se livrar. Percebo hoje que meu amor se torna plena indiferença, me dói também, porque não sentir nada é do tamanho do vazio, esse mesmo que nem se quer pode ser medido.

Quanto de mim teve que se perder, quanto precisei ceder e me dedicar a alguns caprichos dignos de nota, quanto ficou esquecido enquanto eu me esquecia de mim. Foi muito gostar, foi muito querer, foi muito de tudo. De mim, quase nada, de novo, a apatia.

terça-feira, dezembro 28, 2010

(um ano) após o outro

A cada dia o vazio aumenta. Não importa quais as respostas que consigo, as perguntas que faço, as histórias que escrevo. Um grande espaço de nada toma conta de mim todas as vezes que a ausência de uma coisa que não conheço, não encontro, não entendo se faz presente. É quando preciso me voltar para dentro, repassar os acontecimentos, refazer a trajetória que me levou até ali. É quando transformo o meu silêncio em som e escuto vozes em mim.

Tem horas que a inércia me transporta e outras que os excessos me encontram. Vivo vacilando entre extremos e sempre me afastando dos outros. Traço uma linha imaginária e onde começa o meu espaço vive sempre muito separado de onde pode coexistir o de outro. Faço pose enquanto tudo se dissolve em questões pequenas. Convenço a platéia e não me convenço. Interpreto o meu personagem e vejo os outros agirem comigo cheio de dedos, me coloco como expectadora de mim e percebo que faria o mesmo. Mas, vivo esperando aqueles que furam o bloqueio e me tratam apenas como igual. Cada vez menos. Cada vez mais seletiva. Cada vez mais longe. Cada vez mais sozinha.

Os que estão por perto, todo o tempo, são ainda aqueles que me conhecem desde quando eu era a garota de calça jeans, all star, óculos e aparelho. A personificação da adolescente insegura. Hoje em dia são poucos o que ultrapassam essa barreira. A vida de adulto tem um jogo de interesses que não me interessa porque ainda quero só a verdade que está escondida ou guardada. Quero só que a recíproca seja verdadeira pelos motivos certos. E, nesse jogo da vida adulta, é sempre uma besteira tentar definir o certo já que encontrar as doses de felicidade está quase sempre ligado a um vacilo certeiro. Poucos, cada vez menos, cada vez mais, maismaismais dúvida.

domingo, dezembro 05, 2010

u want me, fucking come on and break the door down

O fim do ano se aproxima e eu não consigo separar ele (o ano) de você. São os seus olhos as coisas mais vivas na minha lembrança. São os seus sorrisos e o jeito que reclama de alguma coisa sabendo que está tudo solucionado. O jeito que você reclama só pelo prazer de constatar que nem tudo é perfeito. Gosto do jeito que você parece maduro enquanto fala frases prontas e que se desfaz procurando as palavras. Gosto do seu domínio da vida e da sua insegurança (que - quase - ninguém vê). Gosto desse meu ano, gosto dessa minha vida, gosta da insegurança, gosto de tanta coisa e disso (que nem se quer começou), enfim.

domingo, novembro 14, 2010

i'm all ears to gather clues and look for signs

Quem me conhece sabe a dificuldade que eu tenho de continuar. Durmo apaixonada e acordo desinteressada. Faço planos e desisto deles ao menor sinal de possibilidade. Me interessa o desafio. Os difíceis demais, os que são demais, os que querem demais, os que tem almas e desejos em excesso. Eu sei que é do muito que conseguirei o menos que preciso. Porque, a bem da verdade, só quero a simplicidade. Deitar depois de um dia complexo e dividir o silêncio com um filme. Quero chá e companhia nas madrugadas frias. Quero esquecer que o dia seguinte me cobrará as horas de sono perdidas e perdê-las sem culpa.

Quero encontrar as verdades que alguém guarda nas entrelinhas. Quero a sensibilidade latente que se esconde no que só parece. Hoje quero isso. Amanhã, não sei. No meu castelo de quereres, nenhuma pedra é definitiva.

terça-feira, novembro 02, 2010

Sobre sentir e deixar de

Acho graça quando vejo que para alguns sou insensível. Eu que transbordo em palavras e quase nunca falo. Eu que sou capaz de chorar compulsivamente com uma música. Eu que já achei sentir "errado" e me certifiquei que não existe erro, são só caminhos diferentes. Duas vezes precisei não sentir nada para acreditar que poderia voltar um dia. Por duas vezes fechei a porta atrás de mim, me coloquei diante das provas que eu mesma criava para notar que uma lembrança já não me doeria mais. Assistir "antes do amanhecer" ou ouvir uma especifica música dos Beatles, sem nada disso me afetar. Abraçar alguém que um dia já foi tanto e não me importar com o cheiro que fica em mim.

Outra vez tive que reconstruir mais. A pouca autoestima de uma adolescente que já sabia: estava fadada a viver para dentro. Me fechei mais, me ferrei mais. Mas, hoje de tanto sobrou nada que já não consigo transformar em palavras.

Realmente, tenho uma pré-disposição a pequenas aventuras impossíveis. Talvez ame o que não conheço já que conhecer pode trazer junto uma série de outras coisas. Talvez não ame pelo simples fato de não banalizar o sentimento, a palavra, o momento. Gosto intensamente, gosto sem dúvida, gosto sem pesar. Gosto e não quero o desgosto de não ter mais. E, para não correr esse risco, me cerco das certezas que consigo controlar. Me dedico ao trabalho, me escondo nos livros, crio uma relação sutil com a música, visito minha imaginação no cinema. Vou vivendo uma vida inteira sentindo ao contrário, com uma grande desconfiança nas pessoas e sempre atenta ao fato que vivo disposta a não querer mais.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Antes dos créditos finais

Meu tempo mais bem gasto é dividido entre livros, música e filmes. Passo um dia inteiro feliz andando de pijama pela casa enquanto troco as faixas de um disco que me pegou por inteiro. Vivo uma tarde plena sem sair do lugar, deitada na rede vendo a vida se fazer em letras miúdas, todas sempre são, minha míope é um fracasso. Uma madrugada é sempre mais calma com um bom filme para ajudar a desligar a cabeça do cotidiano.

Troco uma noite insana por paz nessas três doses. Caio Fernando Abreu tem uma frase que diz algo sobre viver uma vida inteira para dentro enquanto lê, ouve música, escreve ou assiste filmes. Mas, para mim é justamente o contrário , é quando vou para fora e sei que não existe perigo. Me visto com um alterego e me cubro de invisibilidade. Transito entre várias vidas sem correr o risco de não estar em nenhuma, é simples o fato de não precisar estar.

Me incomoda a incompatibilidade, as pequenas discussões frívolas, os assuntos desencontrados. Me fascina uma dessas histórias de amor cheia de mistérios e frases fortes. Me interessa o sarcasmo, a ironia, a hora certa de ser errada. Só que no fim, todo mundo quer ser a mocinha enquanto admira mesmo é a garota vestida de charme. Nos filmes e, na vida real, a mocinha é sempre quem se dá bem no final.

Vivo com o desprendimento de quem não se importa com o final desde que a trama me envolva, por inteiro, no decorrer dela. Hoje durmo com palavras contidas, queria falar e ver no que poderia dar. Enquanto isso: nada. (já quase sobem os créditos e a gente ainda tá aqui)

segunda-feira, outubro 25, 2010

'cause all that's left has gone away

Tem horas que a vida me dói e outras que é pura alegria. Me sinto plena com pequenos prazeres. São poucos os que se fazem necessários. São poucos os números para os quais me interessa ligar. São poucas as mãos que gosto de segurar. São poucos pensamentos que me interessam escutar. Sou das exceções e me esforço para entender o todo. Não quero ser injusta com o que não entendo, quero viver com o respeito que suplico que tu também tenhas com a minha diferença. Não quero germinar indiferença e encher o meu jardim de ervas daninhas. Não adianta arrancar, elas sempre crescem outra vez. Por preguiça ou precaução, não quero germinar isso tudo uma outra vez. Recomeçar pode tirar de mim algo que não posso viver sem. Clarice disse um dia: tome cuidado ao cortar até os próprios defeitos, nunca se sabe qual deles sustenta a construção inteira. Um dos meus defeitos é o demais. Ouço uma música, a mesma, uma hora inteira. Choro em quase todos os filmes, por mais banal que ele seja. Transbordo e não falo. Gosto e não me entrego. Pelo gosto do silêncio, sempre me fascinou o mistério. Li Sherlock Holmes porque gostava dos enigmas. Sem notar fiz de mim um deles, fico aqui resolvendo as equações que criei, decodificando os pensamentos em textos.

E então, o rapaz me crítica, diz que sempre fui um enigma e que a insegurança não o fascina. Não consigo pedir desculpas, apenas admito que não vou mudar e juntos concluímos que não vai dar.

Eu realmente preciso de alguém disposto a me deixar ser... o que for.

domingo, outubro 24, 2010

you were burning up, black and grey


Acho estranho o jeito que seu tom de voz não muda. Como parece que encontrou a calma mesmo quando se agita com seus pensamentos falando alto. Acho incrível como você fala fala fala e parece surpreso quando te interrompo com uma pergunta pontual. "O que você quer?", saiu alto o meu pensamento reprimido. "Ser o que sou", sua resposta é rápida. Penso em falar como você é tão você que pode ser tantos para não ser mais um. Mas, me contenho, guardo mais uma vez os meus pensamentos, te entrego um dos meus defeitos. Não falo o que sinto, tenho medo de deixar alguém entrar em um lugar tão meu que não sei se posso dividir. Embora, pense que poderia. Poderia deixar você tocar na minha vida, guardar os meus pensamentos em silêncio enquanto observo a sua calma.

Você aparentemente não muda. A menos que beba uma garrafa inteira de whisky e misture isso com outras coisas. Seu tom é calmo, suas palavras, poucas. Mesmo com todo o álcool da madrugada, sua mudança é sutil. Vejo no seu olhar fixo que você ainda está aí dentro. Continua sendo milhares, continua não sendo nenhum. Gosto de sentir que você está confortável ali, mesmo que seus pensamentos estejam rápidos, seus medos evidentes, suas mãos inquietas. Te sinto confortável ao meu lado enquanto observo seus movimentos cansados. Os outros te pedem tanto, te cobram tanto, querem tanto e você quer ser alguma coisa além. Quer tudo e quer logo. Agora, em silêncio, te pergunto: quanto querer ainda cabe aí dentro?

sexta-feira, outubro 22, 2010

"mistério stereo que eu te cantaria"


Uma parte de mim quer serenata, calmaria e paz. Mas a outra quer caos, uma paixão que não se transformará em amor, um rolo de primavera que não chega ao verão e que esvazia no inverno. Uma parte é poesia e a outra é prosa. Uma parte é poesia e a outra despreza a rima. Uma parte quer explicação e a outra desconstrução. Uma parte quer o racional e a outra não se importa com responsabilidade.

Te mostrei que sou várias. Te contei que meus personagens não existem, não projeto no futuro o agora, faço das minhas histórias pura ficção. Fujo do destino enquanto me escondo atrás do muro do efêmero.

Mas ele passa, tudo passa enquanto eu espero o que não sei se pode ser. Você passou do ponto de ser incompreensível para ser algo além. O que? Eu já nem sei.

domingo, outubro 17, 2010

não é (só) de agora

O mar é infinito, o horizonte aponta sempre um novo começo, o fim é só o ponto onde você não chegou. Para frente e avante, desbravador dos sete mares, com respeito a iemanjá. Do mar o que é dele, ao homem o que do homem: a posição de minúsculo ser em um lugar cheio de tudo.

Tem horas que me sinto mar, sou marola e maremoto, meu humor é o vento que agita os sete mares. Não acolho canoa e nem deixo entrar barco pequeno, não recebo bem os intrusos, não deixo quem não sabe nadar, brincar. Jogo com a vida, me mantenho alerta, sou paz e paciência, sou grito e intolerância, sou extrema. Sou muitas para ser uma só.

Mas, respeito quem pede a graça de iemanjá antes de mergulhar. Acolho barco preparado, pessoas abastecidas com vida vivida, sou democrática e não cobro a entrada. Deve ser por isso que você entrou, com tantas qualidades escondidas e levou lá para o fundo a paz que guardei aqui, na beirada, sentada. Peço a graça de iemanjá para desbravar o seu mar. Posso entrar, rainha do mar?

terça-feira, outubro 12, 2010

o que não pode ter


Gostava do seu sorriso quando me dizia que estava com frio. Da sua mania de dormir de meias que te davam um ar de inocência quase infantil. Gostava de sentir que o mundo poderia acabar enquanto estávamos guardados dentro do nosso castelo erguido em cumplicidade. Éramos cúmplices de pecados que não se confessam, éramos aliados criando uma história, escrevendo um livro, filmando um conto, aumentando os pontos.

Sempre gostei dos jogos, da tensão, do desafio, de te segurar com força e depois te soltar devagar enquanto sentia que você queria estar nas minhas mãos. Mas, por birra, ia até a sala fazer algo que não importava. E daí, a vida me fez querer voar de novo. Você não entendeu que só precisa respirar, abrir a porta da nossa cumplicidade, testar os meus limites, encontrar um novo desafio, por capricho, eu precisava sair. Fui e quando voltei notei que já não dava mais para ficar. O seu conforto me pareceu clausura. Foi você quem não notou que eu precisava de compreensão e só me ofereceu perguntas.

segunda-feira, outubro 04, 2010

ich verstehe nicht



Me desespera a calma, as milhares de obrigações, o que poderia ser uma paixão e se acaba por precaução. Poderíamos tudo se estivéssemos sozinhos. Poderíamos desenhar um novo mundo onde o tédio se transformasse em melodia. Seríamos sempre desafio para nunca cair na mesmice. Seria sua segurança mais insegura só para olhar você se mover em busca das minhas mãos. Como um gato, desconfiado, porém amoroso na medida do impossível. Queria te sentir por perto, pensando se é pelo conforto ou pelo cheiro. Se sou apenas uma projeção dos seus desejos oprimidos ou se sou a mudança deles. Queria segurar suas mãos no escuro e soltar o pensamento.

Quero sem sentido, sem razão, quero pelos instantes de um agora ou pelo tempo do desconhecido. Quero o que desconheço em você, quero encontrar novos caminhos para os mesmos prazeres, quero desfazer os medos e transformar a vida em caos, sem perder a melodia. Quero sentir tudo como se o sentir pudesse destruir os meus sentidos...


We might make out when nobody's there
It's not that we're scared
It's just that it's delicate
Damien Rice