sexta-feira, abril 26, 2013

Conjunções

Vamos nos distanciando de nós e indo cada vez mais para um outro lugar. Um novo eu, um novo alguém que não conheço ainda, que nunca vi. A cada novo fim a bagagem de mão pesa menos, largo algumas esperanças, solto alguns hábitos, atravesso um novo espaço de tempo. Nunca fico para ver o que vem depois disso, depois que saio, depois que a porta se fecha. É como se cada chave fosse gastando a fechadura, entre idas e vindas, alguns meses, entre esses meses algumas histórias, vários sorrisos, jantares, trocas e o fim certo. Me enclausura as expectativas, me sufoca as cobranças, me desespera as necessidades. Não consigo precisar, talvez por ter sido só na infância, filha única de pais ausentes, a necessidade me amedronta. Tenho medo de desapontar o outro no seu castelo de sonhos.

 Não é por maldade, não é descaso, nem tampouco desinteresse. Mas, preciso de um gostar manso, sem cobranças, com espaços para transitar, uma casa ampla que me abrace a cada volta. Um cachorro doce que pula nas minhas pernas a cada retorno mesmo que me puna com alguma indiferença depois da euforia. Meus relacionamentos sempre estiveram próximos disso, um doce cachorro com indiferença e euforia, tenho trânsito livre entre esses dois extremos.

 Só que até então todos foram diferentes. A caminhada dos outros me parecem tão clara, os relacionamentos duradouros tem na sua base a aceitação e a omissão de alguns desejos que a mim são primordiais como o espaço meu para não. A minha necessidade de não. Alguns lugares que são meus como o reino das palavras que não permite a vontade alheia de compreender. Não nasci para esfinge, decifra-me OU devore-te, a conjunção disjuntiva na regra ortográfica da minha vida é adjetiva, decifra-me E devore-te. Me conservar em mistério é o que me faz ficar, em mim, assim...



i'm not gonna sit around
and waste my precious divine energy
trying to explain and being ashamed
of things you think are wrong with me


domingo, abril 14, 2013

repetições

Tive que ir embora antes que terminasse. Um pouco antes de transformamos os meses bons que vivemos em mágoas. Nos acusaríamos, procurando culpados, tentando dar ao outro a responsabilidade do fim que era certo desde o dia que nos conhecemos. Somos tão diferentes no presente e nas aspirações de futuro. Nos desentendíamos em conversas simples. Gostar não seria o suficiente daqui pouquíssimo tempo. E, mais uma vez, eu saio um pouco antes do fim. Antes de ficar difícil demais e antes de ver o que viria depois. Suponho que assim evito despedidas dramáticas e mantenho a porta aberta entre nós para que possa surgir algo bom como uma amizade entre pessoas que respeitam o carinho do passado.

 Me mantenho a quase uma distância segura, entro nos lugares e procuro logo uma saída, deixo tudo simples para ir e vir. Não crio raiz, não viro fruto, sou quase passarinho. Mas, tem me faltado calma e paz, um lugar para ficar, como você foi nos últimos meses. Me desculpa, mais uma vez, torço e espero que tenhamos a sorte de encontrarmos um amor tranquilo, em algum lugar, já que não em nós.

domingo, abril 07, 2013

Você foi crescendo

É quase uma loucura. Dessas que ignoramos enquanto torcemos para que algo como um milagre simplesmente aconteça. Tenho pensado em você nos últimos dias. Seus olhos que parecem deixar sua alma descoberta. Sua doçura que esconde diversas fases de alguém que é milhares ao invés de apenas um. Suas particularidades que me deixou ver quando mostrou suas frases escondidas. Seus segredos que me confiou diante de sorrisos descompromissados.

 Penso no som da sua risada, na verdade do seu abraço, na pureza dos seus sentidos. Te conheço pouco e talvez seja esse o grande segredo. Tenho quase medo de me aproximar demais e ser engolida pela realidade.

 Queria brincar com os seus dedos enquanto conto que passei os últimos dias organizando meus discos, reencontrando as coisas que gostava de escutar, lembrando de gente que passou pela minha vida e deixou suas marcas aqui. Sem que nada disso tenha me tirado do agora e nenhuma lembrança tenha atormentado o que de você existe no presente. Tenho lido mais e gostado de ficar quieta. Respiro mais devagar enquanto espero algo que me faça sentir.

 Estive nos últimos dias realizando sonhos, vendo shows inimagináveis, realizando planos antigos. Faz algum tempo que deixei tudo apenas seguir o rumo das coisas, me soltei nas mãos do destino, leve para que ele também seja. Ah, por leve, lembrei mais uma vez do seu sorriso, dos seus olhos, da sua alma mansa... Lembrei de você.

sexta-feira, abril 05, 2013

Você não sabe, mas eu sempre te esperei

 Minhas paixões se renovam também na ausência. Me solta, me deixa voar e me faça sentir vontade de voltar para compartilhar o que vi no tempo que não estávamos fazendo tudo juntos. Não consigo entender os casais que se esforçam para se tornar um, já que para mim o principal é encontrar outro. Um alguém que viva intensamente as suas próprias possibilidades e me conte no fim do dia como ele foi.

Só não se ausente demais. Não me faça sentir que longe é melhor. Não me cobre no retorno. Conserve a possibilidade do trânsito por mais que a cidade quase não ande. Respeite as nossas diferenças e a minha necessidade de estar em lugares que não são seus.

É verdade que espero alguém que me faça rir de problemas pequenos. Busco em frases, em livros, em filmes, em bares, nos cinemas, em uma praça, em shows, nos lugares todos alguém que caiba dentro de algo que não quero definir. Amores platônicos quase me ganham. Eles alimentam os sonhos já que na realidade sempre encontro o que não compreende. Não é fácil aceitar os meus defeitos todos feitos pela liberdade. Não pode, não se aplica. Não vai, não existe. Eu posso e eu vou... Mesmo que só.

Vou passar horas de vida na companhia dos meus amigos. Vou me perder de madrugada. Vou precisar ficar quieta para não escapar de mim. Vou sair de casa para observar pessoas e imaginar histórias. Vou precisar sonhar, sempre, o tempo inteiro. Podemos criar um universo inteiro de possibilidades ou apenas destruí-las... Podemos ir além.

ps. Título e música da Luiza Possi.

domingo, março 31, 2013

upside down

Cada vez sinto que pertenço menos. Dou voltas no mundo e conheço pessoas diferentes em credos, em vontades, em formas, em cheiro, em cor, em volume, em sonhos, em som. Esbarro em tantos e não fico, não pertenço, não me sinto parte de quase coisa alguma.

 Meu aniversário me faz refletir e me sentir meio certa ainda que tão errante. Já não tento mais fazer ninguém caber no meu sonho e não me prendo no tempo do eterno. Vivo no agora e espero apenas encontrar paz em companhia. Já quis tanto um daqueles amores cheios de ideal que as possibilidades se anulam e se faz sempre platônico. No meu agora só cabe quem me entrega calma, compreensão, sorrisos sinceros, verdades leves e segurança. Troco a tempestade de uma paixão arrebatadora pelo calor de um gostar manso. Troco exageros por compreensão. Troco cobranças por silêncio. Troco preces por prazeres. Troco juras por olhares.

Tem horas que me falta ar, me falta o chão, me falta vontade e inspiração. Um vazio me preenche de nada e quase sufoco por tudo. Busco sempre indo, de onde estou, de quem está comigo. Procuro enxergar de um panorama seguro, talvez próximo de uma saída, a espera de um acidente, de uma frase, de um nada qualquer que me empurre até o fim. De rima pobre, de compasso simples, de forma leve até que o som apenas me leve... Enfim.

quinta-feira, março 07, 2013

Faltam horas nos meus dias e quanto mais de mim se vai menos fica aqui. Corro quase em fuga do que sou enquanto cumpro os compromissos, as responsabilidades, quando sigo gastando os dias que vão em vão. Todos morrendo de tempo.

 São raros os dias de nada quando tocamos o vazio em paz. A vontade de tudo é tanta que até a diversão ocupa um espaço parecido com obrigação. A gente tem que sair, se divertir, se entorpecer de alguma forma mesmo que de alegria. Mas, dentro de tudo isso, lembro que faz alguns dias que você me apresentou novos domingos, alguns momentos coloridos e dias que parecem ter mais horas... de paz.

2 meses

quinta-feira, janeiro 03, 2013

Time will bring the real end of our trial 

 Absolutamente nada. É mais ou menos isso que sinto faz vários dias. Nem conforto, nem raiva, nem carinho, nem mágoa, nem euforia, nem tristeza. É só uma felicidade mansa e um vazio que termina em paz.

 Na minha mente nada fica, os pensamentos sumiram e os questionamentos do depois já não me encontram. O agora é o momento certo. Aqui, em movimento, no vazio. É como se tivesse limpado os armários, arrumado a casa, tirado o que não importa e liberado espaço. Sorrio mesmo quando o trânsito não colabora. Não me irrito de chegar molhada no trabalho (porque esqueci o guarda-chuva em casa). Vejo flores onde não tem. Não dependo de companhia porque já não me importa as ausências. Não que tenha endurecido, mas cresci, valorizo o que chega e não me pede compreensão para estar.

 É ano de planos possíveis, sonhos grandiosos, encontros harmônicos e alegria mansa (porque essa dura depois da euforia).

 No mais, ao acaso estou, plena e vazia.


ps. o título é de Pretty Wings do Maxwell, nada mais caberia tão bem. :)

segunda-feira, novembro 26, 2012

"Te inventei porque você não existia"

É natural que não tenha sido na nossa cidade. Tenho me sentido cada vez mais cidadã do mundo enquanto me esparramo pelos estados do nosso país. Deixo em cada canto um pedaço. O sorriso da minha família na Bahia. O encanto dos meus amigos no Rio. O aconchego da proximidade e o mais perto de ser raiz em São Paulo. Em cada estado deixo um estado de mim.

 Foi no Rio que deixei a graça de ter você. Foi lá que acabou a espera e recomeçou o encanto. No campo do desencontro e da impossibilidade nós demos aula. Na universidade das impossibilidades somos mestres. No universo da poesia nos construímos em rimas pobres. Em prosa fizemos contos e nos encontros desfazemos possibilidades. Foi naquela viagem com o grupo de amigos marcados pelo tempo e por desentendimentos. Nunca fui de fácil tato. Abstraio, mudo, me refaço longe e quase nunca volto. O destino era o Rio e os outros também eram nós.

 Neguei o café no restaurante da Lapa porque queria chegar cedo em Santa Teresa, você resolveu me acompanhar e nós subimos a pé. Foi quando me abraçou demonstrando ter o meu mapa em suas mãos, os seus dedos ao redor de mim, brincando com o segredo que guardo nas costas. Te perguntei o que você queria e você me soltou. Me acusou de quebrar o encanto. Destacou erros seus que não existem, nunca existiram, não te cabem. O papel de mártir você nunca desempenhou bem. A fraqueza encobre o seu talento em ser. E nada disso me parece seu. Te fiz olhar nos meus olhos e me dizer o que era aquilo. Você se virou apressando o passo.

 Fiquei olhando você ir, de novo. Pensando como nunca fiz efetivamente nada, a não ser estar paciente, te escrevendo em mil textos que sempre foram só meus. Foi quando te parei mais uma vez e te dei um beijo. Daqueles que se perdem no tempo do que ficou para trás e apagam inúmeras certezas. Daqueles que cabem carinho e desejo.

 Nós afastamos sem dizer nada enquanto continuávamos subir até Santa Teresa. Notava seu nervosismo e poderia prever que suas pernas tremeriam mais do que o comum. Lembro do seu infinito tique com o qual adoro implicar. Nas aulas da faculdade evitava sentar na sua frente, me irritava o seu all star pendurado na minha cadeira enquanto suas pernas incansáveis e insanas, se mexiam.

 Você falou algo sobre certo e errado. Falamos sobre acertos e erros. Te falei mais uma vez sobre o meu tempo estar no agora. Não acredito em uma felicidade plena e eterna. Acredito em momentos felizes plenos e duradouros, me garanto o direito de criar e viver vários, coloco eles na minha história. Chegamos a Santa Teresa... pensamos em descer para conversar com eles e contar sobre nós... Mas, daí, o meu celular tocou e eu acordei...

 Foi isso (também) um sonho.



domingo, novembro 25, 2012

Muito além do tempo regulamentar

Tenho pensado no tempo faz alguns dias. Foram duas conversas que me levaram a revisitar o meu passado a procura do que me fez ser como sou. Tem dias que me sinto frágil como uma garota de 15 anos e outros que me sinto com a minha idade do tempo. Tem dias que me sinto maior e mais velha. Tem dias que o tempo é o meu tempo.

 Tem sido difícil conhecer pessoas novas. Parece que a ausência de horas faz a gente começar mais a cativar do que plantar. O conforto da compreensão dos meus velhos amigos ao invés de descobrir o som de novas risadas (mesmo sabendo como me faz falta)... Conheci alguém que prontamente me falou "gostei do seu estilo" (?) e de imediato fiz aquela cara que prevê o "você é tão alternativa, descolada, blablabla", essas coisas todas que de tão simplistas apenas me mostram que estou diante de quem não... nada. Mas, dessa vez, fui surpreendida e levada a refletir.

 Me formei e me fiz jornalista muito cedo, tive que amadurecer rápido pro mundo não me engolir. Tenho uma pose que encobre plenamente a minha fragilidade. Me tornei alguém muito mais prática do que gostaria. Não me entrego, não me abro, não me largo, quase não me deixo. Volto para dentro do meu casulo sempre que alguém ensaia me tocar demais. Confesso que a compreensão me assusta mais do que a incompreensão. Venho andando em círculos porque voltas completas me deixam no mesmo lugar.

 Mas, sinto falta, de novos sorrisos, de novidades, de me abrir a possibilidade de encontrar alguém que mude a ordem natural do meu mundo que sempre me leva de volta para quem e para onde não deveria...Quero abandonar os círculos e andar em retas porque é a estrada que me interessa. A que me leva... enfim.


ps. o título uma frase de Um a Um do Tribalistas, clicaqui.

quarta-feira, novembro 21, 2012

Passarinho

 É quase ver a vida passar a limpo nossa história. Novos personagens dentro dos mesmos papéis representando diante de um cenário impressionantemente semelhante. Observando tanto desencontro me encontro diante de quem representa você, chorando com os braços envoltos em mim, se segurando nos meus ombros enquanto não sei o que garantir. Vai ficar tudo bem? Acho que sim, para nós, ficou. Ficou mesmo? Se somos praticamente estranhos e quase não nos falamos?

 Não digo que tudo vai ficar bem... apenas confirmo que vai passar. Tudo passa. Sempre passa. "Eles passarão, eu passarinho" como sabiamente diria Mário Quintana.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Kriptonita

Hoje passei o dia com saudades de você. Espero dormir e acordar amanhã sem ela. Não foi uma dessas que dá e passa. Nem tão pouco aquela que se revira lembranças boas e se encontra calma. A cada nova lembrança que esbarrei encontrei só mais falta.

 A cada nova música da banda que me fez te conhecer reencontrava cada uma das noites e dos shows. Me esquivei dela, ouvi outras e daí lembrei da tarde que passamos mexendo nos seus CDs. Lembrei com um sorriso terno de como você sabia da história da cada um deles. Do seu primeiro emprego e dos que você adquiriu com ele. Dos que se seguiram e da loja que você sempre ia comprar camisetas.

 Lembrei das nossas mochilas iguais e do quanto fiquei te irritando falando que era um modelo feminino. Da Fiona Apple no café da faculdade. Do quanto confio e confiava no seu talento, na sua sensibilidade, na sua habilidade para diagramar meus textos e no cuidado que teve com o layout antigo do Claritromicina.

 Com cuidado senti falta dos três anos que passamos perto e fiquei triste quando por motivos dispersos passamos três anos voluntariamente longe. Agora, nesse que a distância é enorme, hoje me coube sentir toda falta dos últimos tempos... de você.

 Meu amigo, meu querido e talentoso, amigo. Sorte, fé e volta logo!



quinta-feira, novembro 01, 2012

they all want to free the cause

 Eu sei que você não esperava de mim, tanto tempo depois, compreensão. Entendo cada um dos seus passos, me peguei repetindo eles, com outro alguém. Me peguei sendo envolta neles, do mesmo jeito, mais uma vez. Me repetindo e te repetindo. Em tanto tempo infinito.

 Ainda quero te ver dando voltas no mundo. Quero saber da sua última viagem, da língua estranha que você está estudando, da nova vontade que te acometeu. Quero saber dos seus planos e dos seus desenganos.

 Gosto de saber que você ainda lembra do meu livro preferido e de sentir o conforto que você me provoca. Você vai ser sempre um fantasma nos meus relacionamentos, o mais alto grau de comparação, o mais sereno grau de reprovação. É e será o medo de quem se aproxima. É e será. Mesmo que já não seja. Mesmo que eu já seja fria demais para te entender. Mesmo que já não me importe mais tanto assim a ponto de ter racionalizado o que senti. Não sinto... Mas, agora, entendo. Finalmente, te entendo.

domingo, outubro 28, 2012

No pulso da flor

Faz alguns dias que tenha esbarrado em você. Os shows, os momentos, as frases lidas ou as músicas lembradas. Assisti uma peça que me parecia fazer entender cada momento seu que não compreendi. Não queria a sua presença como não a quero faz meses. A distância que construímos é mais vantajosa que as aproximações destrambelhadas que experimentamos. Entre nós a ponte ruiu. Acabou. É verdade.

 Até agora, nesse instante, nunca te contei sobre o que se seguiu depois daquela noite. O quanto eu chorei. Chorei porque senti sair dos meus ombros o amor que não aconteceu. Chorei com a doçura de uma criança que consegue uma cicatriz depois de um tombo. Chorei com a secura de um adulto que reconhece a dificuldade que existirá em se entregar depois de. Chorei sabendo que me tocaria tudo e qualquer coisa que me lembrasse você. Chorei porque você criou em mim certa sensibilidade que não existia. Chorei pela identificação que de nós restou e que me toca a cada novo clichê ou frase feita. Em prantos me entreguei ao abraço do meu travesseiro e ao aconchego dos meus amigos.

 Ganhei presentes quando superei você. Um deles, um chaveiro que carrego comigo e olho sempre que fraquejo ou quase esqueço. Quase esqueço que te esqueci.

 Sou toda música. Construímos tudo entre elas. Nos escrevemos e escrevemos, como escrevemos, o tempo inteiro. Me vejo representada em frases, melodias e ternos momentos.

 "Não tem nada que eu possa te dizer que vá te fazer ficar. Eu não quero também que você fique por mim. Pra não me fazer sofrer, mais. Até porque isso vai me fazer sofrer muito mais..."




Texto livremente inspirado na peça "Música para cortar os pulsos" e no show Dona Flor. (com doses de realidade, hahahaha).

terça-feira, outubro 09, 2012

Novo tempo 

 Hoje vi que estamos sofrendo de tempo, na verdade, da falta dele. Almocei com uma amiga da faculdade, três anos nos vendo todos os dias, e até hoje três anos sem se ver. O encontro foi daqueles que acontecem porque o acaso contribuiu, uma reunião que descobri ontem me colocou ao lado do trabalho dela e mandei um SMS convidando para almoçar. Tinha apenas quarenta minutos. Foi um almoço de quarenta minutos depois de três anos.

 E, não é só o tempo palpável, são os sonhos que não cabem mais no tempo que sonhávamos antes. Todas as minhas amigas tem planos grandiosos de serem profissionais incríveis, calculam a carreira e os investimentos com precisão cirúrgica enquanto fogem de um compromisso. Meninas, quero afilhados e sobrinhos que adotarei como meus, pelo simples fato de ter amigas irmãs. Mas, de forma realista, não vejo no tempo nenhuma previsão disso acontecer.

 Tenho toda pose e utilizo a credencial de moderna. Mas, a bem da verdade, sou uma romântica irreparável. Ainda acredito que vá encontrar quem vá me fazer encontrar prioridades onde entrem dois. Ainda espero alguém que vá me fazer pensar em ter uma família com cachorro e domingos no parque. Vejo uma criança sorrir e o meu mundo para diante da perspectiva de passar o meu legado a alguém.

 Falta a simplicidade que o tempo que já não disponho me permitia. Me falta o sorriso de cantar com alguém especial de olhos fechados ao meu lado. Falta a poesia que um dia pensei escrever e que hoje só me pega de assalto. O tempo me falta e sem ele me falta muito.

domingo, outubro 07, 2012

todos os tempos o tempo

Tenho andado com mais pressa. Tenho ficado presa, no trânsito e nos lugares, perdi o guarda-chuva essa semana e já não posso sair lá fora, se chove. Meu ar parece rarefeito. Sinto como se minha alma estivesse leve e solta. Como se nada me tivesse, de fato, por tempo nenhum. Sinto saudades do aconchego da minha infância e das certezas quase arrogantes da imaturidade adolescente. No processo de desfazer o caos, revirei infinitas sensações, reencontrei a doçura da lembrança de tudo que aconteceu pela primeira vez e vi que tudo acontece no tempo certo. Nada na minha vida ultrapassou o limite do tempo. Um respeito involuntário com o agora enquanto ele me vale e me leva. Não alongo sofrimento, não perduro dúvidas e não conservo incertezas.

Me refaço e desfaço de tempo. O tempo inteiro.

domingo, setembro 23, 2012

Para nunca faltar a paz...

Meus amigos e as suas risadas sonoras. Meus amigos entre copos, entre lágrimas, entre conselhos, entre tardes no parque, entre almoços e jantares, entre viagens e dias inteiros. Meus amigos e as suas obrigações, seus novos ou antigos relacionamentos, seus novos e velhos compromissos, seus novos ou velhos. Meus amigos que não conseguem nunca sair do trabalho na hora e se dividem em milhares. Os apaixonados e os inquietos. Nós sempre sendo tanto.

 Passo dois dias quieta. Assisto três filmes que me levam as lágrimas. Janto com meus pais. Dou risada com a minha irmã. Deixo o celular acabar a bateria e só me lembro dele nos minutos finais do domingo. Dentro do meu reino encantado de faz de conta parece que nada me falta. Não fosse a insônia e a ausência. Não existe um alguém dentro de todos que me faça querer ser caçadora. Fujo a qualquer sinal de uma reaproximação. Não me interesse nada que se refaça, não me cabe mais linhas tortas, não me fascina nenhum recomeço. A vida é mesmo agora. É aqui. E o meu tempo é daqui pra frente.

 Quero a sorte de um amor tranquilo. Quero compartilhar minha preguiça ou acordar cedo para ver o dia brilhar mesmo que ele nós traía e fique nublado. Quero ver e sentir a luz de alguém que queime em vontade e que entregue ao mundo o dobro do que recebe. Quero a sorte de encontrar alguém... ou você.

domingo, setembro 16, 2012

everything's exactly what it seems

 Não dá. Não posso te pedir desculpas porque não me cabe culpa. É coisa que acontece, invariavelmente, sempre. Minha vontade é fonte esgotável de querer. Quero com precisão cirúrgica. Muito e intensamente. Até que não quero mais. Não existiu nada que me fez mudar. Nada que entre na conta a distância ou o tempo. Nada que se explique em palavras. Nenhum outro alguém, real ou não, que me tirou de onde estava. Nada além do fato de que não existe em mim dificuldade em partir.

 É como acordar em um domingo com preguiça de pensar. É como encontrar a vida e o sentir em pleno vazio. Depois de algumas tormentas e diversas dúvidas, o nada me encheu de tudo, sinto plena ausência de algumas vontades reais e, vez ou outra, confesso, sou tomada por elas graças a uma carência mansa.

 Domingo. O meu dia de nada, de filmes, de foco e de solidão. O meu dia em que a melodia se faz em silêncio e ouço músicas para preencher de inspiração o dia seguinte, a semana seguinte. Domingo, o dia de falta, que falta porque é calmaria. Não tem urgência de diversão e nem de alforria.


Domingo... só até a segunda.

segunda-feira, setembro 10, 2012

i'm all ears to gather clues and look for signs

Quem me conhece sabe a dificuldade que tenho em continuar. Durmo apaixonada e acordo desinteressada. Faço planos e desisto deles ao menor sinal de possibilidade. Me interessa o desafio. Os difíceis demais, os que são demais, os que querem demais, os que tem almas e desejos em excesso. Porém, por pura contradição, a bem da verdade, só quero a simplicidade. Deitar depois de um dia complexo e dividir o silêncio com um filme. Quero chá e companhia nas madrugadas frias. Quero esquecer que o dia seguinte me cobrará as horas de sono perdidas e perdê-las sem culpa.

Quero encontrar as verdades que alguém guarda nas entrelinhas. Quero a sensibilidade latente que se esconde no que só parece. Hoje quero isso. Amanhã, não sei. No meu castelo de quereres, nenhuma pedra é definitiva.



texto de 14/11/2010 

segunda-feira, agosto 27, 2012

A sentença

De mim, eu sei. Sei que tenho uma personalidade complexa, sou feita de enormes exceções e minúsculas regras. Sei que minha prioridade não é a mesma da imensa maioria, meus sonhos são diferentes e minhas vontades mutáveis.

 Preciso de silêncio e não me faz mal estar sozinha. Gosto de domingos inteiros de pijama com a companhia de uma série recém descoberta, de um livro que me prende no sofá, de uma música que não consigo parar de ouvir. Gosto das coisas que independem da presença de alguém.

 Amo os meus. Meus amigos e minha família. Não confio em quem não tem ao menos um grande amigo, ao menos uma grande pessoa com quem consiga dividir tudo sem o menor receio. Preciso de quem me entende sem julgar e que guarda em si uma risada sonora da piada subtendida que existe na minha vida.

 Não sou uma daquelas pessoas que conseguem caber dentro da expectativa de outro. Destrua suas expectativas e conquiste minha admiração. Dê mais para o mundo do que espera dele. Construa seus sonhos e trace planos de como viver o irreal. Faça do irreal um céu que consiga tocar. Toque e me olhe no olho quando falar comigo. Me conte suas posições políticas, sua música preferida, o livro que mudou a sua vida e o filme que te faz chorar sempre na mesma cena. Me deixe te conhecer e me conheça ao mesmo tempo.

 "Acho que quando você gostar de verdade de alguém, achará tempo e paciência". De tudo que alguém não entende de mim, essa frase, quase como uma agressão me foi dada como uma sentença. Não nego toda verdade que cabe nela. Até a vírgula é uma possibilidade e depois dela o encontro. Tudo na minha vida acaba por tempo e paciência. O tempo que gasto sonhando, indo de um lado pro outro, fazendo a unha, andando muito mais devagar porque preciso estar de salto. O tempo que não tenho. E a paciência que me falta. Sempre que fica demais, acaba. Sempre que não acho o tom certo, mudo a cadência da minha música. Sempre que não anda, desanda. Falta persistir ou falta achar alguém que eu goste de verdade. É falta. É o que me falta.

 Mas, daí, chega um whatsapp que me faz rir pela compreensão que existe de quem divide comigo essa verdade de não caber em estreitos. Ou não caber em lugar nenhum, o que espero que não. Por agora, me vale estar entre os meus, entre o que existe enquanto desenho um irreal... até que.



domingo, agosto 19, 2012

A semana inteira... 

Os domingos e a sua capacidade especial de me fazer sentir falta. O vazio que se abre nesse dia me faz voltar a sonhar com o encontro que vai me presentear com companhia. Alguém para ver o dia passar em preguiça ou para ir brincar com os cachorros que se espreguiçam no Villa Lobos. Alguém para andar de bicicleta e me fazer tropeçar no riso. Alguém com quem cozinhar ou mudar a ordem do dia. Alguém que agradeça o garçom e o olhe no olho do segurança. Alguém que seja gente e olhe no olho de todas as pessoas, sem distinção. Alguém que me olhe no olho e veja meus medos. Alguém que desfaça os nós do meu passado para me ter, por completo, naquele agora.

 Alguém que seja generoso com o mundo e consigo. Que veja piada nos próprios defeitos e se perdoe pela ausência de perfeição. Alguém que ame os dias e cada pequena possibilidade de renovação. Alguém que se permita e me permita ser, infinitamente e indefinidamente. Que não me espere e não me cobre. Aquele alguém capaz de me soltar para voar e me ajudar a querer voltar. Que não seja complicado demais a ponto de me dar preguiça e nem simples demais a ponte de me desinteressar.

 Alguém que me encante com seus mistérios e com o tom da voz. Com o sorriso alto, com o olhos sinceros, com vida no corpo e na alma. Alguém me faça perder a calma e contar os dias até um próximo dia.

Mas, amanhã é segunda, uma das 48 segundas chances e dias desse do ano. Quarenta e oito, todo ano, a cada ano. A garantia de 48 dias que acordo feliz. Mais uma segunda(feira)chance.