quinta-feira, agosto 30, 2007

MAIS PRO SEU SILÊNCIO

Às vezes eu me perco interrogando certezas. O que seria eu, se não fosse simplesmente, isso. Crua. Sem graça. Sem um monte de coisas desenhadas no corpo e na vida. Um vazio preenchido por um monte de pessoas que vêm e vão.
Uma menina com seus doze anos fazendo tudo errado. Não entendo nada do turbilhão de sentimentos. Não entendo os sentimentos. Nem a vida e nem qualquer coisa. Pegando tudo no susto. Caindo nos abismos que eu cavo. Escolhendo meus erros. Fugindo da felicidade. Ou a procurando nos copos errados. Parece tudo tão estranho. Prefiro quem não entende. Prefiro quem não enxerga aos que vêem. Prefiro os idiotas. Prefiro meia dúzia de pessoas para me trazer luz a um turbilhão de claridade. As bebidas mais fortes. As dores mais insuportáveis. Os problemas de estômago mais incompreensíveis. O impulso de carne e osso. Sem cortes aparentes. Eu não me empresto dor. Só essa que a vida dá, sem gilette.
É mentira. Talvez, eu não passe de uma mentira. E você, também. Cheia dos desenhos que você faz o tempo todo. Os que você pinta e os que mantêm cinza. Eu perdi as canetinhas ou simplesmente não as encontrei ainda. Talvez.
Essa trinca maligna na forma de astrologia. Áries, escorpião e gêmeos. Impulsiva que nem um cabrito. Venenosa como um escorpião. Dupla como um gêmeo. Estranha. Estranha. Estranha.
Ainda bem que eu só tenho 12 anos e depois piora. Ainda bem. Que eles venham a mim. Que venham. O que tiver que vir. Os frutos das minhas escolhas. As escolhas dos meus frutos. O passado pro meu presente. E o presente pro passado. O futuro sem a menor noção. Acho que estou lá no cantinho aprendendo economia enquanto minha cabeça tá em uns livros, umas músicas e uns seres irreais. Tudo muito errado. Nada certo. Mas, tudo respirando enfileiradinho.
Sábado parece que minha fonte secou. Tudo secou. Oca e estranha. Filha de ninguém. Cria de qualquer um. Amiga de poucos. Risadas para minhas piadas sem graça. Platéia pro meu teatro sem arena.
Ainda bem, que eu só tenho 12 anos.
E porque eu tenho 12 anos vou continuar batendo a cabeça na parede. Cheia de calombos. Cheia de marcas. Com o orgulho ferido pelo seu silêncio.
Eu prefiro grito ao silêncio. Sempre prefiro.

terça-feira, agosto 28, 2007

HEART IN A CAGE

Sabe, passei essa noite me revirando nos lençois atrás de respostas. Entre o barulho que atravessava o concreto e aqueles fios de algodão que filtravam as coisas. Ouvi. Talvez, meus gritos internos ecoando naquelas paredes. Essa maldita inércia. Ninguém para acender um cigarro e ouvir os meus planos pro futuro. Ninguém para me olhar nos olhos e falar que eu sou louca por sonhar tanto e querer ir por todos os caminhos ao mesmo tempo. Ninguém para sorrir enquanto eu perco o olhar lá fora. Tudo ainda continua aqui. Mas falta um pedaço. Como feridas abertas. Como um coração esquecido na sarjeta depois de uma noite bêbada. Se alguém visse. Simplesmente se alguém visse. Talvez as coisas diminuissem e eu conseguisse sair um pouquinho daqui de dentro. Queria colocar tudo isso para fora num turbilhão de água. Mas não sai nada. Não saiu naquele dia e nem hoje. Estou seca, oca, inerte. Antecipando o futuro. Esquecendo os meus planos. Perdendo a inspiração e a respiração nas madrugadas frias. Falta de sono, falta de vida, falta de vontade. Todas minhas manias virando luxo. Meu corpo não responde mais aos estimulos. Já não levanto com idéias na cabeça. Rolo por cima delas. Acordo carregada e cansada. Tudo grudado nas paredes e os gritos ainda aqui. As idéias longe do papel. Longe da minha vida. Volto ao meu passado na forma de música. Ouço as mesmas coisas mas dessa vez, não sinto nada. Ando por aí cantando alto atrás de algum olhar. Mas não tem ninguém. Sou eu e o mundo. Sem coragem, sem vontade, sem movimento. Tem alguma peça aqui realmente fora do lugar. Ou simplesmente, no lugar demais. A incompreensão sempre foi o meu combustivel. Minha cabeça, o meu guia. Cadê as minhas noites de transpiração na forma de palavras? Cadê minhas verdades? Cadê minhas vontades? Quando o nada aparece o jeito é esperar. Não tenho vontade de fazer acontecer. Simplesmente queria me esquecer em alguma esquina com um copo e uma idéia qualquer na cabeça. Com alguém para me arrancar lá do fundo enquanto eu grito que quero ficar. Alguém que me pare. Me cale.
Alguém ainda mais complicado. E real.



strokes, como nem tão antigamente.

segunda-feira, agosto 27, 2007

CONTRADIÇÃO

Sabe, você me perguntou várias coisas e eu não soube responder. Sinceramente? Isso pouco me importa. Pouco me importa as perguntas alheias. Mais cedo ou mais tarde, as respostas simplesmente aparecem nas minhas falas. Ontem, no meio de uma conversa estranha. Achei as respostas para sua pergunta. Às vezes eu não preciso de nada. E a minha solidão me basta. Aquelas fontes de alegria ou simplesmente o que me arranca o stress na forma de fumaça. E nas outras eu preciso de alguém forte para me puxar de lá de dentro quando grito que quero ficar. Ninguém nunca sabe quando é o momento. Ele é meu. Pessoal e intransferível. Sem interação. Com a cara amarrada ou com sorrisos. Com alegria ou tristeza. Saúde ou doença. Prazer, a contradição.

sexta-feira, agosto 24, 2007

UM PEDIDO EM SILÊNCIO

Às vezes só existe esperança na forma de palavras. São nesses momentos que tudo falta e eu me prendo em um enorme vazio . Quase ninguém percebe, eu me escondo aqui dentro tão fundo, de fora só uma leve farsa. Quando achei que tinha encontrado, perdi de novo. Sempre que pulo os buracos do caminho caio dentro deles e quando me acostumo com o aperto e o escuro minha vida resolve simplesmente andar. Porém, meus passos são apertados. Meu amigo me disse e eu me pergunto por que é verdade? Eu não consigo ser sincera comigo. Meus sentimentos são tão frágeis. Parecem as mentiras da fé cega. Se assoprar com força eu caio. Caio de joelhos diante das suas palavras.
Eu preciso admirar as pessoas para gostar delas. Se não as admiro não passa de uma relação vazia, dessas que a gente enche de mentira para passar o tempo. Meu tempo não passa, ou ele simplesmente não chega. Você apareceu quando era época de procurar alicerces e delimitar o meu pequeno lugar no mundo. O suficiente para que tudo seja claustrofóbico e arejado nas mesmas proporções. Os opostos nos quais eu deixo minha vida transitar e me prender. Meus pensamentos vagam enquanto olho algumas pessoas nos olhos. É um misto de felicidade e inveja. Tudo seria mais fácil se não fosse essa a minha vida. As coisas suportáveis e coloridas. Esse escuro e as minhas canetinhas falhas me impedem de escrever com cor. Não consigo viver de outra forma. Aceitar de outra forma. Tirei da sua solidão a minha força. E dela fiz a minha. Da sua vida tirei escolhi os erros e nem pensei que fosse ser assim. Uma estrada estranha e eu resolvi ir pelo acostamento. Sempre mais rápido do que é permitido. Nunca devagar. Agora, aquele guarda ali parado me fazendo sinais para encostar. Penso em seguir em frente e se possível levá-lo junto. Mas, preciso de algo que me pare. Espero que isso seja melhor do que continuar dentro dessa cabeça. Preciso que alguém me prenda e me tire daqui.
Esse carinho descarrilado. Essa montanha-russa. Tudo que essas paredes respiram me fazem mal. Você aí com a sua solidão me faz mal. Me socorre ou me pára. Mas, me ajuda?

domingo, agosto 19, 2007

SOZINHA

Chega. Abre essa janela. Troca essa música depressiva. Larga esses livros na mesinha. Sai daí de dentro e vem ao mundo dourar a pele. Ranger os dentes. Sentir a raiva e a incompreensão que te impulsionam. Larga a mão do marasmo e se joga de cabeça, como sempre. Abra os pontos mal costurados que ele deixou. Deixe tudo doer até que não haja mais lágrimas nem dor e nem nada. Só um vazio enorme. Ouça os seus gritos internos. Encha o quarto de samba-canção, com o ritmo enganando as palavras, o sangue preso nas beiradas do ritmo gostoso e leve. Melhor do que essa dobradinha melodia&letra tristes. Para de se encolher nos cantos esperando o que te salva. Quando nada salva o segredo é se bastar. Pule num pé só no equilíbrio daquelas sarjetas que você adorava e hoje pega a preguiça como desculpa para não comprar ilusão. Você cansou da ilusão, mas é só isso que tem para hoje. E se é no samba que você sente prazer. Se arranca daí de dentro e vai ali bater na caixinha enquanto cartola faz o seu jogo de poesia. Deixe de cavar abismos com os pés. Seque suas cicatrizes.
E se você não fizer nada disso. Sinto muito. Eu vou, sem você.

quarta-feira, agosto 15, 2007

HEART FOR SALE

Talvez eu tenha esquecido minha alma no fundo de um copo. Alguém a bebeu e agora transita por aí sem notar que me carrega. Mas eu sei que me perdi. Garoto, você me olhou naquele bar e entendia todas as palavras que eu dizia. E entendia as mais altas piras da minha cabeça. E os meus olhos. E quase conseguia amenizar o meu desespero. Mas, daí apareceu a luz e a minha cabeça foi andar por outros lugares e o meu corpo foi testar outras mãos e o meu coração resolveu se espremer em outro canto. Nunca certo demais. Nunca antes. Sempre errado, sempre depois, sempre mais tarde, sempre em outro lugar.
.
.
.
Sempre.

segunda-feira, agosto 13, 2007


quinta-feira, agosto 09, 2007

RAZÃO

Você lembra daquele dia em que te vi no balcão daquele bar. Senti que naquele segundo eu te escolhi para ser meu. De repente o mundo desligou, as vozes simplesmente se congelaram, e ali eu tive certeza que perdi um pedaço de mim. Mas eu não quero nada, nunca quis e não ia querer naquele momento. Eu quero a minha liberdade respirando grudada nas minhas botas. Carrego minha vida debaixo do meu braço. Uma falsa auto-suficiência vestida de solidão.
Eu mostrei pra você, deixei você tocar e então me encolhi no sofá daquele bar. O meu celular tocou e aquilo parecia ser o momento errado se não fosse o certo e o necessário pra me tirar dali. O resto, eu quase não lembro, uma porção de fatos sugestivos. Uma porção de mentiras enevoadas naquele bar.
Ontem me falaram que eu vou morrer. Dei um sorriso como quem espera pela novidade. Mal sabe ele que eu já morri. Naquele dia que não te aceitei e te transformei em ficção pro meu futuro. Então, morro a cada trago de vida coloco a morte mais perto. O sorriso de quem pouco se importa. Eu não tenho medo. Eu não tenho medo da minha cabeça. Eu não tenho medo do meu sono. Eu tenho medo do meu sonho. Eu não tenho medo da minha voz. Eu não tenho medo.
Les pensées qui glacent la raison.

segunda-feira, agosto 06, 2007

NO SURPRISES


Finalmente, depois de um monte de dias com um nó na garganta tudo vai saindo pelos meus poros. Fazendo a fotossíntese como uma planta sem graça. Lá fora balançado na rede enquanto o tempo não se decidi entre o frio e o calor. Na cabeça um monte de coisas.
Um monte de coisas sem coerência. Ou melhor, nada. Um vazio tão grande que o espaço que sobra é tão desesperador quanto estar presa num quarto minúsculo e escuro. Cadê tudo que estava aqui? Onde foi parar as minhas coisas?
O ar me falta e tudo começa a rodar. Faz dias que tenho tido vertigens que desconhecia. De repente tudo escurece e eu fico aqui segurando algum produto da minha imaginação. Não tem forma, nem cor, nem cheiro. É uma mentira que vesti de realidade para não viver caindo por aí. Meus copos estão secos, minha garganta está seca, meus olhos estão ressacados e nem aquele colírio estúpido empresta umidade pra minha vista.
Cansei dessa montanha-russa. Não é legal machucar as pessoas que você ama. Não é legal. Não é. E depois pedir desculpas, essa desculpas cristãs que o mundo carrega e eu nunca tive. Nunca tive porque sempre fui dona dos meus atos. Livre, pobre e com a felicidade que é só minha. Mas o meu carrinho descarrilou e agora eu não me reconheço nesse corpo. É como se tivesse alguém agindo por mim. Mas sou só eu e a minha solidão necessária.
Vários medos escondidos dentro dessa força que todos acreditam que eu tenho. Ou alguns acreditam, ou eu acho que acreditam. No fundo, não tem explicação. Eu sou a contradição com firma reconhecida. Eu sou o meu ponto de interrogação com várias exclamações desesperadas no final.
Sou eu e essa minha auto-suficiência imaginária.
Só isso.

ouvindo radiohead compulsivamente.

sexta-feira, agosto 03, 2007

IT'S BEEN SO LONG I'VE LOST MY TASTE


Chega. Vou parar de gritar. Ganhei a rouquidão enquanto você continua aí com as mãos sobre seus ouvidos. Seu coração bate, sua cabeça gira, seu corpo treme e você continua com as mãos sobre as orelhas.
Você levantou e caminhou até a beira da cama. Eu continuo aqui. Com os olhos pregados no teto desse quarto. Perdermos no mundo a nossa capacidade de aceitar essas mentiras. Deixamos nossas pegadas nas sombras. Tiramos da vida as nossas vozes fazendo juras embriagadas.
Estou sozinha. E é sempre assim. Sempre. Recolho o meu pensamento da beira da sua cama do outro lado dessa cidade estúpida e sufocante. Apanho pela casa os restos da farsa que aceitar o nada dessas noites. Busco minhas últimas forças e me levanto para enfrentar esse dia. Esse lindo dia filho da puta, sem a sua voz, sem o seu cheiro, sem o seu gosto misturado com o meu. No fim, só uma sexta-feira, uma abafada sexta-feira. Queria te fazer entender minha vida. Mas você não consegue. Ou, renega nossa proximidade para manter o pouco de sanidade que você compra na farmácia.
Vou quebrar meu silêncio. Levantar o zíper da bota. Colocar preto para celebrar o seu funeral. Amanhã de manhã, espero não lembrar nosso nome. Nem o meu. Nem o seu.
Eu sabia. Sempre soube. É verdade, nunca quis acreditar que você ia, e você foi. Agora sou eu e minhas palavras contra o mundo.
Hoje sentei naquele bar que a gente foi algumas vezes e você não gostava e eu gostava porque era quentinho e eu podia me esquentar e te esquentar com as minhas mãos. Você não gostava e mesmo assim ia. Hoje não era você. Era o meu amigo e eu tentei explicar pro meu amigo o que achava das pessoas e falhei. Falhei porque depois de você eu acho muito pouco. Esqueci dos meus planos, da paz, do mundo. Eu e o meu amigo ficamos observando as pessoas com 12 anos e suas 2 cervejas para 8 pequenos-burgueses-rebeldes-sem-causa. Sinto falta do seu mau-humor. O meu amigo também tinha, mas não era o seu. Nem era você. Eu amo meu amigo. E, eu ainda amo você.

quinta-feira, agosto 02, 2007

ME AJUDA?


Vou bater a cabeça na parede até meu cérebro ficar em silêncio. Queria um botão. Um maldito botão. Só uma coisa simples para apertar e deixar tudo em off. Assim como é simples não falar com os outros, quando não quero. Assim como é simples detestar várias pessoas só porque elas me olharam e eu não gostei. Como é simples me apaixonar pelos pêlos que estão debaixo da blusa dele. Como é simples engolir essas palavras.
Mas minha cabeça gira. Meu estômago dói. A falta de álcool e a sobriedade me emprestam uma verdade que não queria conhecer. Tenho medo da nossa proximidade muda. Você entende, mas não me ouve. Você não quis daquela vez e continua sem querer agora. No fundo você sabia tudo que eu falava. Ou eu achava que sabia. Ainda, acho que sabe.
Só queria bater minha cabeça na parede. Enfiar o dedo na goela. Costurar o meu peito aberto enquanto você opera essas mudanças. Você conhece todas as peças certas. As muda de lugar sem pedir licença. Usa meu corpo como se fosse seu lego. Você, uma criança sentada com as pernas abertas e as pecinhas espalhadas a sua frente. É só isso que eu sou. É só isso que você é. Peças. Recheado delas em forma de palavras.
Não quero as suas palavras. Se você não é capaz de me dar nem que seja a sua raiva e a minha sina é lidar com o seu silêncio, não quero. Não quero nada. Nada. Nada. Fica com tudo que você construiu. Com seu castelo de cartas marcadas. Com suas tatuagens. Com o seu karma em forma de solidão.
Ninguém nunca vai te aguentar, porque você é real demais para alguém te tocar. Ninguém nunca vai me aguentar, porque os seres humanos não possuem mais paciência, assim como eu não tenho e você não tem.Todo o meu ódio gratuito pelos olhares que não escolhi e pela ausência de alguns. A ira do meu despertar e a vontade de continuar sonhando. Esses dias sonhei com você. Não lembro o que era. Você sorria com aquele movimento débil de ir para trás e para frente. Você segurava o meu braço entre as suas risadas me pedia para ter paciência. Eu não sei esperar. Nunca soube. E menos ainda quando não existe nenhuma garantia.
Queria você para me guiar entre esses livros. Me mostrar a vida e os lugares que conheceram os seus restos de uma noite vivida. Eu falo o tempo todo comigo, com eles, com esse computador, com essa tela em branco e uma música embalando minhas palavras. Falo, falo, falo. Mas falar sozinha cansa. Minhas respostas pregadas em algum passado. Meus cheiros se misturam ao calor que transpassa minha matéria e o frio que embala minha alma. Queria um mestre, uma certeza, alguma verdade e a sua ajuda.
Me ajuda?


alguém mais com 18 anos ou mais, se diverte e ri, com saltimbancos?!
SIM, néam?
sabia :)

segunda-feira, julho 30, 2007

PRESENTE


Eu tenho uma dor no peito. Insistente e presente. Na fila das dores, essa foi a minha escolha. Viver com o coração com as veias trocadas. Sangue arterial e venenoso separados por tênue linha. Olho para dentro e não acerto os meus botões. Às vezes, esqueço as fórmulas e tudo acontece no susto.
Difícil esconder a dor em sorrisos. Dona da noite. A escuridão coloca meus medos nas esquinas enquanto atravesso sem olhar para os lados. Ando pela Augusta como se conhecesse cada milímetro daquela rua. Distribuo sorrisos escondidos dentro da minha boca fechada.
Qualquer bar é um pedaço de vida despregado em qualquer noite dessas. Uma sucessão de acontecimento baratos. Algumas lágrimas ainda ardem sobre os meus cortes. Ninguém as vê. Elas são invisíveis. Eu me escondo aqui dentro tão fundo e a solidão me põem na parede neste quarto frio e escuro. Cansada de ninguém para dividir verdades e cansada de dividir essas mentiras.

No metrô um garoto reflete minha vida e eu tenho vontade de chorar. Ele estava sentado com um gibi nas mãos, a cabeça quase no colo, com os olhos pregados e um sono terno. Estava com o seu avô que chamou pelo seu nome quando era hora de descer. Comigo os desenhos do plano para viver, os olhos pregados e a cabeça entre os braços. Passo a mão pelos cabelos para deixa-los aparentemente bem. Passo a mão e jogo a poeira da minha vida para debaixo do tapete. Vou aglomerando pequenos erros para pagar por eles no dia do juízo final.
Quero me desprender nessas palavras. Rezar pelo amanhã. Trocar nossos deuses. Tomar uns corpos para perto enquanto não posso ter o seu.
A dor no peito me persegue. Minha velhice de menina agitada. Meus olhos envoltos em verdade enquanto miram os seus naquela luz bagunçada. Na claustrofobia que me dá lugares com pessoas felizes ou bêbadas. Bêbadas e felizes. O álcool empresta fantasia para logo mais acertar as contas com seu fígado. Meu corpo recebe os estímulos e responde a eles com secura ou a falta dela.
Estou cada vez mais fraca e a vida cada vez exige mais de mim. Não desistirei na próxima esquina dos meus sonhos. Recolho todos eles e os carrego na mochila. Andarei. Sóbria ou bêbada. Ereta ou torta. Certa ou errada. Só o meu passo é garantia. E o futuro? A respiração dele me impulsiona para frente e o ronco do meu passado me afasta. O meio do caminho é o presente. O meu presente. Agora, alguém faz chamada lá na frente, quando chamam pelo meu nome em um impulso respondo: PRESENTE.

sexta-feira, julho 27, 2007

AINDA SUA


Todo esse veneno injetado em mim. Os passos me enfraquecem. Seria mais útil amarrar as feridas e estancar o sangue. Guardar minhas últimas palavras para quando você resolver passar por essa porta. O veneno me enfraquece, o conhaque na mesinha me empresta verdades, meus olhos transparecem o desespero da minha alma. Sinto tanto por não te falar e mais ainda por não te ouvir. Queria suas palavras se transformando em paz no ar abafado do meu quarto. Ainda que o vidro estivesse embaçado, tudo respirava aqui dentro. Meu coração. Minha pele. Minha vida. Minhas mentiras. Tudo respirava.
Nossos medos saiam todas as manhãs atrás de algo vago. E hoje, só me lembro das suas costas. Você foi. Eu sei, você sabe, não volta. Nem você e nem aqueles momentos.
Achei que tudo tivesse passado, mas esse veneno conversando com meu sangue para negociar a minha vida, me devolveu você.
E esse silêncio, e esse conhaque, aqueles corpos, aquelas mentiras e você aí preso, onde eu também já estive, onde eu ainda estou. Olho atrás de mim e tudo que vejo é a parede da sala.
Lembro da última vez, você deitado no sofá com aquela cara mais linda e me olhava e eu te olhava de volta. Você não entendeu nada quando levantei e sorri já saindo. Parece que você sentiu que eu saia da sua vida com o mesmo sorriso que entrei. Você sabia, até quando eu não tinha certeza, de que levantar aquela hora era abandonar a nossa história.
E hoje só essa saudade e esse sentimento de impotência dividem esse apartamento. Solidão é estar com alguém e se sentir sozinho. Solidão é perder alguém e não achar a paz. Solidão é antecipar rupturas óbvias e sentir que deviam ter vivido o restinho. Que nem aquela criança no restaurante mais cedo. Engolir o suco até fazer barulho, e depois com os olhos mais ternos sorrir. Mas, eu cresci e já não é educado fazer barulho. Tenho uma vida, algumas dívidas e muitas dúvidas. Você pregado aos batalhões do meu passado e eu sozinha com meu presente.
Mais uma dose e eu vou lá procurar seu cheiro e seu gosto em outros corpos.
Ainda sua...


funhouse, funhouse, funhouse.
:)

quinta-feira, julho 26, 2007

SEM A SUA FALTA

Cada acorde rasga um pouco mais minha alma. Uma voz vestida de fantasia para embalar uma guitarra destoada. E minha vida toda começa a respirar nesse quarto. Como se por um longo período ela estivesse regada a algo que a fizesse respirar de maneira artificial. Ignorei por muito tempo a necessidade de amar. Seguia dia, menos dia, a repetição das minhas piadas. Deixar as pessoas me quererem para depois de súbito notar que não seria delas. Nunca consegui ser de ninguém. Talvez, porque estivesse esse tempo todo pregada a um monte de mentira.
Essas palavras me emprestam sentido e me envolvem de ficção. Chega um momento em que eu deixo de ser eu. E um personagem qualquer, respira minhas falas. Como em um filme antigo na tv. Sem efeitos especiais as coisas acontecem, sem ensaio, quase sem fala. Escárnio da minha realidade.
Os seus olhos me emprestaram calma. E eu senti que tudo poderia desmoronar, se a minha única garantia fosse poder segurar as suas mãos. A sua melancolia misturada a minha. Nossos medos juvenis em comunhão de desgraças. Alguns sonhos pintados no meu quarto. Minha cabeça descansa no seu colo. Seus dedos bobos brincam com meu cabelo. Você enrosca a sua falta de jeito a minha vida e tudo parece ter encaixe perfeito. De repente eu sou a sua mulher. E você só precisa ser meu homem. O resto a gente descobre como faz. O resto não interessa se depois eu ainda tiver o seu olhar.
Conversamos no tom exato. Nem alto, nem baixo. Nem direto, nem indireto. Temos a medida exata para isso funcionar. Conservo seus sonhos amassados dentro de uma caixinha ao lado dos meus. As nossas promessas ainda pairam sobre o ar. Tatuei o seu olhar no meu cérebro e o seu nome no meu braço, mesmo sabendo que não é para sempre. Machuquei meus lábios. Apertei meus olhos enquanto olhava suas costas.
Você saiu pela porta e não voltará tão cedo, eu sei e você sabe. A minha saudades escorrega pelas paredes do quarto enquanto desço as costas por elas. Encontro o chão. Abraço minhas pernas. Descanso minha cabeça sobre meus joelhos. Penso em você aqui, com os dedos atrapalhados sob meus cabelo. Com os olhos mais ternos e tristes.
O silêncio grita aqui dentro. Meu coração todo fodido procura paz em outros corpos. Meus medos estão trancados no armário. E os meus sonhos descansam na caixinha ao lado dos seus.
Me visto de mulher. Levanto o zíper da bota. Prendo o cabelo. Não vou esperar você trazer de volta o tempo. Andarei por ruas e avenidas atrás do seu cheiro misturado a qualquer corpo. E hoje, só por hoje, a sua falta será esquecida.

quarta-feira, julho 25, 2007

PRA VOCÊ VIVER MAIS


Esquece, eu nunca vou fazer sentido. E eu continuava andando por essa cidade. A procura de alguma coisa para trocar pela minha paz. Esquece, não adianta procurar o que não existe. É como procurar luz nas trevas. Pode até ser que um dia algo ilumine aquilo, mas não é garantia de que ela a luz esteja guardada ali. Talvez o sentido esteja me esperando em algum lugar e quando eu virar a cabeça devagar ele se apresente. Mas, eu não ando devagar. Nem agora, nem nunca. Não sei esperar quietinha. Meu medo dura o suficiente para virar um texto e depois vai. Visto uma roupa qualquer. Levanto o zíper da bota. Enfio no bolso tudo que posso trocar e esqueço as mentiras da noite passada.
Continuo, dia após dia. Noite após noite. Acordo muitas vezes com idéias pregadas na minha cama. Rolo e passo por cima delas. Levanto com a sensação que mais uma vez abri a porta sem a coragem para te pedir pra ficar.
Desligo o celular para evitar ligações desesperadas. Desligo o computador para me desconectar da vida impessoal. Perco meu tempo descansando as verdades do meu mundo real.
Quando apago as luzes do meu quarto seus olhos parecem lanternas na minha memória. As suas frases ecoam e batem nessas paredes. Meu travesseiro virá meu confidente. São frases presas e as que eu falei e você não escutou. Queria te pedir para ficar. Mas minha voz não saiu e você foi. Minha coragem não me permitia te poupar da liberdade. Minha prisão é pequena demais para nós dois. Então deixei que você fosse. Te vi sair por essa porta, a mesma que hoje me prende aqui dentro. Não consegui te pedir para ficar. Suas notícias cada vez mais vagas e inacreditáveis. Você desse lado do mundo se debatendo para se embebedar cada vez mais. Sua ressaca chega a mim como um soco no estômago. Sigo com a nossa dor, abraçada aos meus joelhos.
As frases não parecem sair de você. É como se tivessem arrancado de nós mais do que o amor. Sou mais forte do que imaginei. Segui os meus dias, mesmo que eles parecessem quase sempre noite. Olhei pro céu e as estrelas não piscavam. Em nenhuma estava você. Talvez você também olhasse e visse mais do que essa escuridão. Vestido de mentiras enquanto seus olhos distribuem verdades para corpos frígidos. Queria te devolver a paz que nós massacramos com a nossa fraqueza conjunta. Sinto por não te pedido para ficar. Mesmo que dia após dia a vida se encarregue de provar que era o certo. O melhor para todos, principalmente, para mim.
Tudo ainda permanece tão perto. Ouço a sua respiração e a sua cabeça trabalhando, e ainda assim temos um oceano nos separando. Penso na sua voz e o que ela me diria. O quanto suas palavras não me enganam. Promessas jamais cumpridas. Como aquela em que seriamos sempre um do outro.
Sinto falta do seu cabelo. Do seus olhos. Da sua calma, mesmo quando tudo desmoronava, e a gente se abraçava. Nossos corações juntos prometendo em silêncio que seriam para sempre um par.
Minha confiança ruída. Minha vida ruída. Meus caminhos cada vez mais tortos. E as certezas vazias. Em cada corpo só vejo o seu. Em cada voz só ouço a sua. Em cada lembrança só encontro você.
Um pouco mais de paz. E a certeza de que amanhã é outro dia. O cheiro pouco a pouco é mais fraco. Móveis novos apagam as lembranças do nosso sonho equalizado. Minha nova vida me tira do verde que encobria seus problemas. Eu, nova, mais fraca, com o coração em pedaços e a cabeça certa de que tudo passará. Sou eu. Ainda é você. Mas, acima de tudo. Sou só eu. E mais dia, menos dia. Tudo passa.
Quando todo esse sabor amargo sair, você será minha mais doce lembrança.


qualquersemelhançanãoémeracoincidência

coisas que só a soulsista entende.
mais uma porção delas.
abõr (L)

terça-feira, julho 24, 2007

MAYBE IT'S RIGHT


Tudo parece minimamente calculado para cair. Na esquina seguinte pode tudo desmoronar. Todo o julgamento só esperando o momento certo para cair de joelhos na minha vida. As coisas pareciam estar no lugar. Os medos todos, em fila indiana, organizados e cada um respirando no seu ritmo medíocre.
E a vida começa a andar na linha bamba. Um passo em falso e tudo deixa de ser como pode ser o momento certo para tudo acontecer. Ou posso me quebrar inteira na queda.
Não quero levantar se não tiver alguém aqui para sorrir e arriscar um "vaificartudobem", mesmo quando tenho certeza que nada fica bem, e o caminho é só passar a manga no rosto e seguir.
Às vezes queria viver sempre como se fosse sábado, quando meu corpo tira férias do meu cérebro, e tudo adquire aquela simplicidade bêbada. Nenhum tipo de problema. Longe da neura da minha mãe. Da diferença indiferente do meu pai. Da claustrofobia que me causa essa casa.
Mas, tem uma semana toda me separando do meu dia. E essa semana me presenteia com coisas absurdas e incompreensíveis. Quando chove sinto mais a sua falta. São lágrimas abafadas lavando o chão dessa cidade. E aquela gosma preta desce a augusta enquanto eu volto de um dia de trabalho. Tenho quase tudo que gostaria de ter. Mas nada, preenche o que ficou aqui. Sabe, a sua falta? Ela grita todas as manhãs. Vira e mexe, me pego olhando a porta, na esperança de você voltar. Mas você nunca volta. Domingos são amargos porque não te tem aqui para dividir. Na sexta à noite você não chega anunciando o fim-de-semana. O escuro não empresta nenhum foco de luz, porque seus olhos, passaram para o lado de lá.
Nunca pensei que essa coisa com cinco letras pudesse me tirar tanto. Nem que a dor ia passar e essa saudade fosse me envenenar dia após dia. Lembro da minha promessa. Do seu corpo inanimado e das lágrimas que se misturavam ao frio daquela noite.
Queria acordar e ver que tudo não passou da minha imaginação trabalhando. Perceber que pude te ajudar. E no fim, os problemas são impulsos. E a chuva, arranca os restos do meu passado.
"fica tão solitário às vezes que até faz sentido"
c.

segunda-feira, julho 23, 2007

GUARDA-CHUVA VERMELHO

A falta de ar me faz respirar pelos olhos. As lágrimas que rolam pela minha fase alimentam minha solidão. Toda minha aparência desnudada aos olhos de quem passa pelo metrô. Passo a mão no rosto para espantar os fantasmas que andam na linha dos meus olhos. Penso em você lá atrás e a sua morte me dói de novo. Tudo que era comum para mim e hoje é um luxo. Todos meus medos sucumbindo a minha promessa. A que fiz a beira da onde você descansa seu sofrimento. O nosso sofrimento. A minha impotência diante de Deus ou daquilo que chamamos disso. Ninguém entende o que há aqui. Ninguém entende porque muitos acham que conhecem e poucos tem razão. Isso que uns chamam de arte e eu chamo de palavras são gotas de mim. Um conta gotas de dor e sanidade. O que de pior existe continua aqui, preso, me envenenando os dias. Minha maquiagem de alegria dá lugar ao desespero que é me carregar pelo mundo.
Não tem como explicar que às vezes sou duas. A compreensão fingida não me interessa. Sigo sozinha porque no fim só eu me aguento. Ou não. Ainda, existem os meus métodos para fazer tudo virar verdade.
Preciso aprender a manejar essa montanha-russa descarrilada que é minha vida. Arranjar um cinto de segurança. E tirar as pessoas da fila. Não queiram andar por aqui. Não, agora, nem semana que vem, nem na outra. Um dia isso tudo passa. E eu permitirei que a fila se reconstitua.
Hoje, só a chuva me faz bem e meu guarda-chuva vermelho é minha mais perfeita companhia.

domingo, julho 22, 2007

CALÇADA

Ando até as pernas deixarem de responder aos meus comandos. Procuro em algum lugar a paz que me aquiete. Cansada de falar tanto e quase sempre. Ou de simplesmente engolir minhas palavras e silenciar. Minha vida é uma montanha russa sem cinto de segurança. Os trancos me impulsionando para frente e o movimento acelerado me prega as costas na cadeira. Essa rapidez da vida às vezes me tira minha pouca calma. Cansada de pisar sempre nos mesmos cacos do caminho, ensaio um milhão de vezes tritura-los. Fazer do meu passado pó. Depois assoprar para que ele se misture com o ar e vague tanto quanto tudo foi vago. Vestida de mulher para esconder a menina que brinca aqui dentro, caminho pelas ruas dessa cidade. Procuro o lugar onde tudo faz sentido. Alguém para entender minhas palavras. Sem julgar entre alto ou baixo. Pequeno ou grande. Minha vida sem certidão reconhecida em cartório. Fortemente influenciada por algumas coisas e indiferente a outras. Indecisa entre sonho ou ilusão. Pregada ao meu mundo enquanto há tanta vida lá fora. Esqueço as chaves de casa. Aproveito a calçada para relembrar o passado. Aperto minhas pernas enquanto todo mundo que um dia viveu começa a descer a rua.
Lágrimas rolam em um ritmo frio. Tudo que vivi e hoje mantenho longe. As saudades enrolada com a ilusão. Talvez, tudo não tenha passado de um sonho bom. Exatamente o que quero carregar. Sinto saudades. Uma falta enorme de quando acreditei que tudo poderia ser para sempre. Acordar de manhã e encontrar meu porto seguro. Porre. Brigas. Lágrimas molhando os bancos. O eco todo que encontravam nossas risadas dentro dos blocos. E tudo coexistindo. Nossas diferenças brincavam de amarelinha enquanto nossa igualdade produzia elos. Sinto falta. Do pôr-do-sol e do nascer dele. De acordar no escuro e demorar para amanhecer no horário de verão. Tudo que deixamos de aprender com alguém mais velho para puxar de um filme qualquer no cinema.
Acreditei que tudo podia ser para sempre. E que eu seria diferente. Meus mortos enterrados, não como eles estão agora, ainda há vida naquilo que queria enterrar. E muita morte no meu presente. Sinto cada pedaço do meu corpo tremer enquanto minha cabeça se enche do nosso sentido. Uma família grande. Com todas as brigas e até certa falsidade. Alguns blocos e a certeza de que nossa juventude seria eterna.
E agora todos tem obrigações. Alguns as mesmas e pouca coisa mudou. Outros encarando a vida de frente sem poder sentar para chorar quando a vontade é forte. Engolir em seco cada sentimento ruim.
Queria de volta o meu desespero juvenil e as minhas incertezas. Quero queimar como sempre foi. Vontade de gritar mas só há silêncio ao meu lado. Gostaria de rir mas só há indiferença. Queria cantar mas não lembro a letra. Só uma vaga melodia embala minhas saudades.
Alguém conhecido vem descendo a rua. Chegou alguém com as chaves. Escondo minhas lágrimas, odeio enfrentar perguntas óbvias, chorei e choro quando apagam as luzes. Quando a montanha russa tá lá embaixo. Me embebedo de saudades e me nego a matá-las. Por enquanto prefiro a certeza de que tudo não foi uma doce ilusão. No meu quarto sinto minha alma sugada e o sono me desespera. Encontro minha cama enquanto apalpo o escuro. E durmo. Durmo. Durmo.
Amanhã tudo será diferente, ou não.
CORPOS

Queria entender tudo. Encontrar minha paz na minha santa insanidade. Não me preocupar com as verdades do mundo. Criar meus códigos e ouvir os seus. Pintar meu quarto de roxo e me embebedar do cheiro da tinta disfarçando o seu que ficou aqui. Mostrar as suas fotos pros meus filhos daqui 5, 10 anos e nada daquilo tudo doer. Queria andar por todas as ruas dessa cidade e te expulsar da minha cabeça por 30 segundos inteiro. Cada arranhão das paredes parece os da suas unhas no meu ombro.
O coração jorra sangue e molha todos que passam ao meu lado. Assisto seu corpo andar e no meu peito um desespero vazio. É como se eu gritasse e não saísse nada. Como se andasse e tudo a minha volta continuasse igual. Só você tatuado no meu cérebro.
Joguei meu coração na sarjeta e achei que você fosse se abaixar para pegar. Não olhei, esperava você correr e cutucar meu ombro. Você não fez daquela vez. E não fez hoje.
Sai da sua casa com uma música tocando ao fundo. Você não me pediu para voltar. E nem ligou para me dar sua respiração embaraçada. Não tem desespero em você, assim como não há amor, a indiferença me corroí a alma. O seu gosto me empresta algumas mentiras pelas quais sou grata. Sonhava com você me pedindo para ficar. Seus braços me protegendo da vida enquanto ela me obrigava a enxergar através da janela. Sua mão sobre meus olhos filtrando as imagens. Suas mãos apanhando meu coração daquela sarjeta. Mas não. Você nunca fez nada disso. Um produto maldito da minha imaginação. Você, todo fantasia, não existe. Nunca existiu e vai continuar sem existir.
O asfalto lá fora sustenta a mentira do mundo. Embaça a visão. Poderia fritar um ovo no que escorre do meu coração naquela sarjeta. Aquilo fervilha, enquanto aqui, quase morro de frio.
Tremo enquanto tudo isso se passa na minha cabeça. Agora, você assobia, anunciando sua chegada na porta da minha casa. Penso em ficar quietinha e fingir que não estou. Querer isso seria meu maior presente. Não aceitar que você faça comigo o que jamais permiti a ninguém. Te dei o que mantive sob sete chaves. Abaixei as paredes ou você atravessou-as enquanto me distrai. Acreditei em mim, durante muito tempo. Até cometer esse terrível engano e o seu coração começar a bater, ao meu lado, tão alto e me tirar o sono.
Ninguém nunca me viu assim. Simplesmente, porque eu não sou, assim. Sinto muito por toda mentira que te emprestei.
Fecho a janela e me escondo atrás da porta. Não peço pra você ir, porque minha boca não responde aos meus comandos, mas não te quero aqui. Não, por hoje.
Vou me arrumar e sair para comer alguns corpos. Alimentar o falso para aceitar o real. Vai e volta mais tarde. Vai e talvez não volte. Vai, enquanto resgato meu coração daquela sarjeta. Jamais deixarei que isso aconteça de novo. Vou respirar a fumaça, me emprestando o oxigênio que você teima em me tirar. Filtro por lá todos meus medos, anseios e nervoso. Tremo e fico molinha em questão de segundos.
Serei minha até segunda ordem. Minha. Minha. Minha.
E hoje, só alguns corpos, por favor.

terça-feira, julho 17, 2007

E, VOCÊ VEIO.

Queria esquecer tudo e ir em frente. Seus olhos nos meus fazendo juras baixinho enquanto os dois tinham a maior certeza de que nada daquilo seria verdade. meus ouvidos tentando captar suas palavras. Minhas mãos brincando com seus dedos enquanto os seus se enrolavam no meu ombro. Meu corpo todo encolhido perto do seu. queria transpor a física e naquele momentos virarmos um só. Caminhar com você. engolir teu cérebro e te emprestar o meu. Descansar meu coração na sua estante.
Mas amanheceu e a luz sempre aparece pra estragar tudo. Acordamos com os corpos grudados e a cabeça doendo. Lembranças fora do lugar. E o cheiro ocupando o quarto. Sentia pesar minhas palavras e passava pomada nas tatuagens que você fez no meu cérebro.
Queria acreditar que tudo é verdade. Abriria mão da minha mania em me equilibrar na sarjeta se tivesse a certeza que você entraria nela comigo. Seria sua, se você pudesse ser meu. Mas você não pode. Não pode, hoje. Não pôde, aquele dia. E vai continuar não podendo. Simplesmente porque você não sabe o quanto é você e o quanto sou só eu.
A minha liberdade sai com as mãos no bolso. Leva todo movimento e peso que desfilo em palavras. Algumas músicas aqui sempre tocando. Remember. De quando acreditamos que seríamos para sempre. Não esquece de pegar suas coisas e fechar a porta. Levanto antes e me tranco no banheiro. Quando voltar quero meus lençóis no lugar e o seu olhar longe daqui. Não te pedi, mas você sabia. Você sempre sabe. Quando voltei você não estava. Então, me encolhi no canto tentando querer aquilo. Te querer longe. Fui até a janela para acompanhar suas costas se perder no meio da multidão. Tarde demais. Já não tinha mais sinal das suas costas e nem da minha vida naquela rua lá embaixo.
Acendo um cigarro. Tentando te transformar em só mais um. E eu sei. Você sabe. E todo mundo que nos viu também sabe. Não somos mais um. Nem para o mundo. Nem para o outro. Vasculho meu quarto atrás de uma desculpa boa para te ligar e pedir pra voltar. Não acho desculpa. Não tem nada. Nem um botão esquecido. Nem nada.
Te ligo. As som não sai, só o barulho da minha respiração, e você me pergunta o que aconteceu. Te peço para vir até aqui de novo. Você diz que não dá. E não dá porque você não quer. Você tem medo. Eu também tenho. Mas prefiro assumir meus medos. Escolho meu jogo e escondo as regras. Respiro no telefone. Você pergunta o que houve e eu digo que nada.
O canto do meu quarto de novo me têm de joelhos. Ouço o trinco da porta. Levanto a cabeça e é você entrando no meu quarto. Seus olhos garantias gratuitas de que aquilo valerá a pena. Dure o que durar. Seja o que for.Oh, lemme think, lemme think, what shall I do?