sexta-feira, junho 08, 2007

AQUI DENTRO

Uma grande inconveniente. Como a música que toca na hora errada. Frases presas durante meses que esperam o pior momento para sair entre um sorriso. Uma grande e desajeitada pessoa. Espremida em lugares vazios para sobrar espaço pras neuras todas.
Solidão calada. Falta alguém. Mas ela não está lá fora. Está aqui dentro perdida. Se debatendo. Tentando resolver todos os problemas. Quando o que sai da minha boca é um foda-se bem grande. Tudo fora de controle. Eu estou fora do meu controle. Meus gostos, minhas vontades, meus anseios me escapam dos meus dedos.
Vivo fingindo que sei. Para o que não sei parar de fingir que sabe. Cansada. Ando cansada. Ando. Os meus passos me levam a lugares dos quais gostaria de fugir assim que boto os pés lá dentro. As pessoas. Sinto falta de algumas pessoas que jamais estiveram aqui. De algumas coisas que não vivi. De alguns cheiros que jamais senti. Sinto falta e parece que existe um vazio tão grande aqui. Minando pus.
As pessoas. As suas verdades e as suas mentiras. Um desfile de vidas. Ando na rua imaginando o que há ao meu redor. O que aflige aquele cara sentado cobrindo os olhos. O que incomoda aquele menina com cara de choro. Quem é o amor daquela mulher que perde seus olhos em outra órbita. Não sei o que me para. Sinceramente. Não sei o que me salva. Não sei se tenho salvação. Se vou consumir tudo que há aqui dentro. Assim como o suco gástrico come meu estômago e me dá um mal-estar idiota.
Engulo meus gritos quando fico em silêncio. Maquio minhas verdades quando encubro os olhos. Fujo dos meus monstros quando brinco de pega-pega com a minha sombra. Alguma coisa esta lá fora. Uma carta. Uma palavra. Uma frase. Uma coisa que desprendi enquanto perdia coisas nesta vida. Uma pessoa que passou porque eu não o queria aqui naquele momento. Os meus momentos todos em fila indiana. Tanto amor. Tanta raiva. Tanta coisa e eu não sinto nada. Não sinto. E não choro. Queria chorar três dias e três noites. Até minha cabeça e meus olhos explodirem em um mar de palavras. Mas não choro. Não consigo chorar. Estou seca e oca. Com o coração furado e vazando pelas beiradas. Distribuo coisas que queria manter aqui dentro. Viro uma menininha feia e boba quando alguém que um dia entendeu tudo isto se aproxima. Tenho medo de quem me conhece. Tenho medo de quem me lê. Tenho medo das minhas palavras. Elas me comem inteira e não aceitam devolução. Alguém. Queria sentar com uma pessoa, expulsar a menina feia e boba, prender ela na minha cabeça e falar. Falar. Falar. Porque eu falo tudo que esta aqui dentro tão fundo em uma frase sem perceber que ali me desnudo mais um pouco.
Tenho vergonha. Medo. Uma sensação estranha. Uma coisa estranha e minha. Tenho a vontade toda de chorar. Mas sequei. Sugaram minha alma de canudinho. Sugaram minhas palavras com um aspirador de pó. Sugaram minha vida com uma lente de contato. Comeram minhas palavras. Todas elas. Eu existo. Eu sei que existo porque ontem me recusei a colocar uma blusa de frio porque queria sentir alguma coisa. O frio. O cigarro. A bebida em um copo. Queria sentir. E sair de lá. Correr. Correr. E não ouvir mais nada. Não queria mais nada. Me perdi diversas vezes aqui dentro enquanto as pessoas conversavam alheias a mim. Me perdi. E ri. Porque eu sorria de contentamento e dor em um compasso só. Eu sorrio. Eu ando e eu continuo. Eu sempre, continuo.