quarta-feira, março 26, 2008

O RETORNO, O PERDÃO E A FAMÍLIA

Então ele entrou, sorriu, abriu os braços, sentou, se arrumou na cadeira. E colocou no meu rosto o melhor sorriso. E leu, meio desalinhado, com as palavras saindo rápido, e o olhar preso no papel enquanto eu achava que era só para mim. E naquele minuto ele era meu e não mais das outras 499 pessoas.

Como eu imaginei que você se sentiria um dia e você não sentiu. Então, ele continuou e num dado momento eu já não ouvia. Entrei dentro de mim, com os olhos piscando e o sorriso pra ele. Dentro das minhas paixões e de tudo que é verdade. O presente que representa muito. Do jeito que eu preciso me apaixonar e como eu me engano hoje com a razão falando alto como nunca. A razão que eu uso para não apagar seu sorriso com medo e incerteza. A sua vida, o seu tempo, a sua vontade. Longe ou perto, seus olhos brilhando e o seu mais belo sorriso, são o que importa. A minha paixão pela simplicidade das coisas. Sentir e fazer. Querer e lutar. Ir ou ficar.

Me apaixonei por viver. E mentalmente enquanto ele ainda lia, sorria e pensava em tudo. Pensei em perdão, quando ele fala em mil perdões e no meio disso percebi o quanto perdôo meus pais. Quanto perdôo e entendo a loucura da minha mãe. Quando ela me agride é o jeito de se agredir mais e na cabeça dela é como se fosse menos. Se ela fala e acha que erro é porque me vê vivendo tudo que ela poderia ter feito. As escolhas erradas e a vida que ela viu passar enquanto eu crescia com o meu gênio e a liberdade na bolsa. Eu nunca fui um exemplo de filha, embora tivesse ótimas notas e aprendesse tudo sozinha, eu sempre precisei o mínimo dela e isso machuca quem quer ensinar. Eu não gosto de dependência, nem das pessoas que reclamam de tudo e por tudo, como se nunca tivesse uma solução e como se a solução não estivesse ao alcance do perdão. Eu perdôo os meus pais, culpar eles por tudo é um absurdo. Amanhã será eu. Ao meu futuro entrego tudo que fiz, as vezes que errei e os meus acertos, e a liberdade; que outras tantas vezes usei mal e nessa maldade tive as mais formidáveis experiências. Conheci as pessoas mais sensacionais e me permiti ser, estar e ficar quando era simples ir embora.

Amores, serão sempre amáveis.

Aos meus pais o meu perdão, a dor o aprendizado, ao passado a lembrança, ao presente a esperança e ao futuro o acaso.








Naquele natal, eu pedi a saúde e a vida dela de volta, a vida que dois meses depois já não existia. Daquilo eu levo o eterno aprendizado e minha mania de viver e ser feliz, com o minímo possível e com as pessoas que o mundo escolhe.
E é tão irritante ver gente reclamando de relações fodidas, enquanto as relações existem, enquanto é possível reverter e se desculpar. Eu acho que o meu pai, se pudesse, pediria desculpas por ter sido contra a vida dela e as vontades que ela levou para o infinito. É só isso que me permiti viver, a sinceridade absoluta comigo, dos sorrisos que ela me dava cheio de dor física e da coragem que ela não teve para viver. Força e coragem são duas coisas diferentes, isso eu também aprendi ali.